quarta-feira, 22 de junho de 2016

Como são avaliados os professores nos países com a melhor educação do mundo

No último domingo, seis pessoas morreram durante confrontos entre professores e a polícia no Estado mexicano de Oaxaca. Pelo menos 100 pessoas ficaram feridas, incluindo muitos policiais.

Leire Ventas Da BBC Mundo




Este protesto, organizado pela combativa facção de Oaxaca da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Ensino (CNTE), o principal sindicato da categoria do México, foi apenas o capítulo mais recente na resistência de um amplo setor da categoria em aceitar reformas educacionais introduzidas pelo governo em 2013.

Entre as medidas, a mais polêmica é a introdução de um sistema de avaliação do desempenho dos professores.

Os professores do México não são os únicos a resistir a esse tipo de iniciativa. No Chile também houve protestos quando , em 2006, foi introduzida uma medida parecida.


Entretanto, "a maioria dos países com bons resultados educativos avalia seus professores", diz Cristián Cox Donoso, especialista em estratégia docente do Escritório Regional de Educação da Unesco para a América Latina e o Caribe.

É o caso de Xangai, Cingapura, Hong Kong e Japão, que aparecem nas primeiras posições do Programa Internacional para Avaliação de Estudantes (Pisa), utilizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para comparar o desempenho e matemática, ciência e leitura de meio milhão de adolescentes de 15 anos em 65 países, incluindo o Brasil.
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Image caption A China tem um sistema complexo de avaliação de professores

Em Xangai, por exemplo, assim como no resto da China, existe um complexo sistema destinado a medir a qualidade dos professores. Os critérios gerais se estabelecem a nível nacional, detalham-se ao nível local, e cada escola é encarregada de levar a cabo as avaliações.

E as avaliações têm ainda critérios como integridade profissional e valores do professor, não apenas habilidades.

O processo tem autoavaliações, questionários dirigidos a colegas, alunos e pais, mas também leva em conta os resultados acadêmicos de seus alunos.

Os dados são enviados ao governo central.

"A China quer redefinir o sistema para fazê-lo mais científico", diz Vivian Stewart, autora do livro A World-Class Education: Learning from International Models of Excellence and Innovation, que analisa iniciativas internacionais bem-sucedidas no campo da educação.

Stewart também elogia o sistema de avaliação de professores em Cingapura. No país asiático, a avaliação anual é obrigatória desde 2005 para todos os professores. Ela leva em conta não apenas os resultados acadêmicos, mas também as iniciativas pedagógicas do professor, as contribuições para seus colegas e sua relação com os pais de alunos e organizações comunitárias.

E, durante três momentos do ano, o plano de aulas de cada professor é vistoriado pelo diretor ou sub-diretor da escola.

No Japão, cada professor estabelece objetivos junto à direção da escola no início do ano, e no final do ano tem seu desempenho avaliado.


Durante o ano, aulas são supervisionadas por grupos de professores - e em alguns casos por inspetores e mesmo autoridades via vídeo. Em Hong Kong, as escolas realizam avaliações anuais, que o governo revê a cada três anos.
Informalidade

Mas nem todos os sistemas são tão formais. Na Finlândia, país que segue sendo um importante referencial educacional a nível internacional, embora tenha perdido posições nas últimas edições do PISA, a maneira de medir o desempenho dos professores é diferente.

No início da década de 90, o paíes europeu aboliu o sistema de inspeção escolar e hoje as avaliações têm lugar na própria escola, com base em conversas entre o professor e o diretor.
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Image caption A Finlândia tem sistema de avaliação mais informal e baseado na confiança

"É um modelo baseado na confiança", diz Paulo Santiago, analista de educação da OCDE.

Mas Santiago afirma não haver um sistema que sirva para todos.

"Ele precisa ser adaptado ao contexto".
Panorama latinoamericano

Especialistas recomendam ainda que um modelo de avaliação precisa cumprir com as seguintes características: os padrões de medição devem estar bem estabelecidos, os professores devem conhecê-los e quem avalia os professores deve ter boa formação.


Na América Latina, o país que há mais tempo avalia seus professores é o Chile.

O governo criou um sistema nacional em 2006, depois de uma longa negociação com os sindicatos. "E a partir de agora, com a promulgação da Lei da Carreira Docente, os professores da rede particular também serão avaliados", explica a BBC Mundo Cristián Cox Donoso, o especialista em estratégia docente da Unesco.

O processo inclui uma revisão do portfólio do professor, gravação de uma aula, entrevistas com examinadores e uma autoavaliação.

Os dados são alimentados a um computador, que calcula uma nota para o desempenho docente. E os resultados podem determinar se um professor vai receber aumento ou mesmo enviado para plano de reaprendizado para trabalhar em suas deficiências.


Se não há melhora nas avaliações seguintes, o professor poder ser forçado a deixar de exercer a profissão.

Cox informa que, além de Chile e México, Colômbia e Peru também estão estudando ou introduzindo projetos do tipo.

ORIGEM DO TEXTO http://www.bbc.com/portuguese/geral-36595678

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Carência de matemática impede exercício da cidadania no Brasil, diz pesquisador premiado

"O Brasil precisa de matemática", afirma o pesquisador premiado

Daniela Fernandes De Paris para a BBC Brasil

 

A carência de conhecimentos em matemática no Brasil chega a um nível que "interfere no exercício da cidadania", afirma o diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) do Rio, Marcelo Viana, que recebeu em Paris na quarta-feira o maior prêmio científico concedido na França.

"O Brasil precisa de matemática", diz o carioca, que citou à imprensa o caso real de uma vendedora de castanhas de caju que oferecia um pacote por R$ 3 e dois por R$ 5, mas se recusava a vender três por R$ 10 por considerar um mau negócio.

"Não estamos falando de profissão tecnológica, e sim de vender castanha de caju. A matemática também entra nesse nível. O país tem que encarar isso como uma prioridade", afirmou após a entrega do prêmio.


Viana recebeu o Grande Prêmio Científico Louis D. por sua obra sobre sistemas dinâmicos - ramo da matemática que estuda fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo -, utilizados em ecossistemas, previsão do tempo, trânsito e movimentos planetários, por exemplo.

A honraria, dada pela primeira vez na área da matemática, é concedida pelo prestigioso Institut de France, que reúne as cinco academias do país, entre elas a de Letras (fundada em 1635), a de Ciências e a de Belas-Artes.

O brasileiro dividirá o prêmio de 450 mil euros (cerca de R$ 1,8 milhão) com o matemático francês François Labourie, da Universidade de Nice, por outro trabalho também na área de sistemas dinâmicos.

Segundo as regras da premiação, 90% do montante distribuído deve ser destinado a pesquisas.

Para Viana, a matemática no Brasil é "subvalorizada", e o ensino da disciplina é "catastrófico" por causa da má formação dos professores e da falta de incentivos na carreira.

"Primeiro o professor precisa saber matemática. Pode parecer óbvio, mas não é", diz ele, acrescentando que apenas 5% dos formandos nessa área estudaram em universidades públicas e que muitos deles preferem não integrar o sistema de ensino.

A grande maioria, afirma, cursa faculdades privadas, "cujo controle de qualidade é no mínimo duvidoso".

"E mesmo quem, apesar de tudo, decidiu ser professor não terá um salário compensador nem uma carreira motivadora."

Além disso, esses profissionais acabam trabalhando até 70 horas por semana para complementar a renda, diz Viana.

Para ele, o Brasil deveria dar prioridade à situação "muito grave" do ensino da disciplina.

"Temos dados (mostrando) que, ao final do ensino médio, nem sequer 10% dos alunos que são aprovados aprenderam o mínimo desejável."

No último estudo internacional PISA, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado com alunos de 15 e 16 anos, os alunos brasileiros ficaram no 58° lugar em matemática em um ranking composto por 65 países, atrás de lugares como Albânia e Costa Rica.

De acordo com o mesmo estudo, 67,1% dos estudantes brasileiros na faixa etária analisada têm baixa performance na disciplina e poderão, mais tarde, ter dificuldades no mercado de trabalho, o que limita a possibilidade de ascensão social.
'Bicho-papão'

Para o diretor-geral do Impa, a matemática precisa ser valorizada e se tornar "mais atraente, criativa e próxima das pessoas". Para isso, o papel das famílias é fundamental, diz ele.

"A matemática é um barato. É preciso mostrar isso para a criança desde cedo. Nosso diagnóstico é que o bicho-papão da matemática não existe nos primeiros anos", afirma.

"As crianças gostam de matemática, mas como ela é ensinada nas escolas e a falta de relevância dada pelas famílias faz com que a criança vá se afastando da disciplina."

A área, explica, começa a se tornar um "bicho-papão" para as crianças a partir dos nove anos de idade.

"Pai que diz à criança que ele nunca gostou de matemática está passando o sinal de que não é importante conhecer o assunto", completa.
Olimpíadas de Matemática

O Brasil vai sediar nos próximos dois anos os dois maiores eventos mundiais de matemática, ambos no Rio de Janeiro, que poderão contribuir, na avaliação de Viana, para "mudar a cultura" em relação ao tema e popularizá-lo no país.

A Olimpíada Internacional de Matemática será em julho de 2017. Em agosto de 2018, ocorrerá o Congresso Mundial de Matemáticos, realizado pela primeira vez em um país do hemisfério sul, apesar de existir desde o século 19.

Nesse evento, realizado a cada quatro anos, é entregue a medalha Fields, conhecida como o "Prêmio Nobel da matemática", que o brasileiro Artur Avila, também do Impa, recebeu em 2014.

O Impa irá lançar diversas atividades durante esse período, como o "Festival da Matemática", em abril do ano que vem, "que visa um público amplo", diz Viana.

"Os eventos no Rio vão permitir que alcancemos um público que de outra forma não alcançaríamos."

O pesquisador afirma ainda que acha má-ideia a fusão, pelo governo interino de Michel Temer, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com o das Comunicações.

"Não se mexe em time que está ganhando", diz, se referindo ao fato que desde a criação do ministério, há mais de 30 anos, houve uma evolução dos indicadores científicos e tecnológicos no país, que, a seu ver, pode ser atribuída em "boa parte" à ação da pasta.

"Um país que já é uma potência mundial na pesquisa em matemática, como comprovam as muitas conquistas, como a medalha Fields de Artur Avila, precisa tornar-se uma potência mundial também nas salas de aulas e em seus lares", afirma Viana.
"Um país que já é uma potência mundial na pesquisa em matemática precisa se tornar agora uma potência mundial também nas salas de aulas", diz Viana
ORIGEMDOTEXTO:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36486579

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Qual é o país mais bem educado do mundo?

Hospitalidade japonesa combina requintada com desejo de manter a harmonia e evitar conflitos

Steve John Powell e Angeles Marin Cabello Da BBC Travel

   Hospitalidade japonesa combina requintada com desejo de manter a harmonia e evitar conflitos

O Sol já começava a sumir no mar, alertando que talvez tivéssemos matado muito tempo em nosso passeio de bicicleta pela ilha japonesa de Ninoshima, na baía de Hiroshima.

Sem saber o horário do último ferry-boat para o continente, paramos em um bar de beira de estrada para perguntar. A questão motivou olhares preocupados de todos os lados: o último barco estava prestes a sair.


"Você pode conseguir se pegar um atalho", disse um homem, saindo do bar e indicando uma rua estreita morro acima. Como a noite caía rápido, tínhamos sérias dúvidas se conseguiríamos, mas partimos mesmo assim.

Olhando em volta, ficamos impressionados ao ver nosso novo amigo subindo correndo o morro atrás de nós a uma distância discreta, para assegurar que não nos perdêssemos.

Ele só voltou depois que o porto apareceu à frente. Sua gentileza espontânea permitiu que entrássemos no ferry com alguns minutos de folga.


Essa foi uma de nossas primeiras experiências com a omotenashi, que costuma ser traduzida como "hospitalidade japonesa". Na prática, a expressão combina uma polidez requintada com um desejo de manter a harmonia e evitar o conflito.
Modo de vida

Omotenashi é um modo de vida no Japão. Pessoas resfriadas usam máscaras cirúrgicas para evitar infectar outros. Vizinhos se presenteiam com caixas de sabão em pó antes de iniciar obras - um gesto para ajudar a limpar suas roupas do pó que inevitavelmente será produzido.

Funcionários em lojas e restaurantes te cumprimentam com uma deferência e um caloroso irasshaimase (bem-vindo). Colocam a mão embaixo da sua na hora de dar troco para evitar que qualquer moeda caia. Quando você deixa a loja, não é raro que fiquem na porta se curvando até perdê-lo de vista.


Máquinas também praticam o omotenashi. Portas de táxis se abrem automaticamente diante de sua chegada - e o motorista de uniforme branco não espera gorjeta. Elevadores se desculpam por deixá-lo esperando, e quando você entra no banheiro o assento do vaso sanitário se levanta.

Placas indicativas de obras trazem uma imagem fofa de um trabalhador se curvando em deferência.

Na cultura japonesa, quanto mais uma pessoa vem de longe, maior é a cordialidade em relação a ela - daí a razão de estrangeiros (gaijin - literalmente "pessoas de fora") invariavelmente se impressionarem com a cortesia.

"Ainda me surpreendo depois de nove anos aqui", afirma a professora de espanhol Carmen Lagasca. "As pessoas se curvam ao sentar perto de você no ônibus, e depois de novo quando se levantam. Todo dia percebo algum gesto novo."
Ensinamentos

Mas omotenashi vai além de ser gentil com visitantes; essa atitude perpassa todos os níveis da vida cotidiana e é ensinada desde os primeiros anos de vida.

"Muitos de nós cresceram com um provérbio", diz Noriko Kobayashi, chefe de turismo interno no consórcio DiscoverLink Setouchi, que busca criar empregos, preservar o patrimônio e promover o turismo em Onomichi, na região de Hiroshima.
Image copyright Mixa/Alamy Stock Photo
Image caption Antes de começar reformas, as pessoas oferecem caixas de sabão em pó aos vizinhos

"Ele diz assim: 'Depois que alguém fez algo bom a você, nós devemos fazer algo bom a outra pessoa. Mas depois que alguém faz algo ruim a você, nós não devemos fazer algo ruim a outra pessoa.' Acho que esses ensinamentos nos fazem ser educados no comportamento."

Mas, de onde vem toda essa cortesia e educação? Para Isao Kumakura, professor emérito no Museu Nacional de Etnologia, em Osaka, grande parte da etiqueta japonesa tem origem nos rituais formais de cerimônias de chá e de artes marciais.

Na verdade, a palavra omotenashi, literalmente "espírito de serviço", vem da cerimônia de chá. O anfitrião dessas cerimônias trabalha duro para proporcionar o clima certo para entreter convidados, escolhendo a louça, flores e decoração sem esperar nada em troca.

Os convidados, cientes dos esforços do anfitrião, respondem mostrando uma gratidão quase reverencial. Os dois lados criam um ambiente de harmonia e respeito, ancorado na crença de que o bem público vem antes da necessidade particular.
Código samurai

Do mesmo modo, delicadeza e compaixão eram valores centrais do bushido (o caminho do guerreiro), o código de ética do samurai, a poderosa casta militar que era altamente treinada em artes marciais.

O complexo código, análogo ao da cavalaria medieval, não governava apenas a honra, disciplina e moral, mas também o jeito certo de fazer tudo, da deferência ao ato de servir chá.

Seus preceitos zen demandavam domínio das emoções, serenidade interna e respeito pelo outro, incluindo o inimigo. O bushido se tornou a base para o código de conduta da sociedade em geral.
Image copyright Angeles Marin Cabello
Image caption No Japão, a hospitalidade perpassa todos os níveis do cotidiano e é aprendida desde cedo

Uma coisa maravilhosa de estar exposto a tanta gentileza é que se trata de algo tão contagioso como catapora. Você rapidamente estará sendo mais gentil e civilizado, entregando carteiras perdidas à polícia, sorrindo ao dar vez a outros motoristas, levando seu lixo para casa e nunca - nunca - levantando a voz ou assoando o nariz em público.

Não seria ótimo se todo visitante levasse um pouco de omotenashi para casa e espalhasse por aí? O efeito cascata poderia mudar o mundo.

Leia a versão original desta reportagem, em inglês, no site BBChttp://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-36422151

terça-feira, 10 de maio de 2016

O matemático que ouvia as fórmulas impossíveis sussurradas pelos deuses

Dev Patel no papel de Ramanujan

Filme conta a história de Srinivasa Ramanujan, um matemático indiano autodidata que revolucionou a ciência no início do século

por Daniel Mediavilla


Em 1913 o matemático G. H. Hardy recebeu uma carta com um conteúdo incrível. O autor era um jovem indiano, Srinivasa Ramanujan, capaz de produzir fórmulas inverossímeis, apesar de não ter recebido educação formal em matemática pura. Apesar de ter respondido com ceticismo a princípio, Hardy acabou levando Ramanujan de Madras, no sul da Índia, para o Trinity College, em Cambridge (Reino Unido) a fim de tentar desvendar o segredo daquele gênio autodidata.


Aquele foi, diria Hardy mais tarde, o único evento romântico de sua vida. O encontro serviu para mostrar ao mundo trabalhos como as fórmulas que permitiam calcular em alta velocidade os infinitos decimais do número pi. Hoje, um século depois, o legado da breve vida de Ramanujan continua influenciando a matemática, a física e a computação.

A história desse encontro é contada agora em O homem que conhecia o infinito, protagonizado por Jeremy Irons (Hardy) e Dev Patel (Ramanujan). Desde sua origem, é relatado este encontro improvável entre um indiano religioso, casado com uma garota de 10 anos e praticante de uma religião que não permitia que cruzasse o mar, com um racionalista ateu membro da elite intelectual eurocêntrica da época.

“Não acredito na sabedoria imemorial do Oriente, mas acredito em você”, diz Hardy a Ramanujan em um momento. O indiano sentia que um ser superior, sua deusa, sussurrava as fórmulas que resolviam problemas impossíveis. Hardy, fascinado pelo seu talento natural, tentava que ele mesmo reconstruísse o caminho para que alguém sem a mesma inspiração pudesse chegar às mesmas conclusões.

Além dos desafios científicos, o filme mostra a rejeição que Ramanujan precisou enfrentar na Inglaterra. Apenas os esforços de Hardy, e o apoio de alguns membros da faculdade Trinity como J. E. Littlewood, permitiram que fosse reconhecido em um mundo que ainda justificava o colonialismo na existência de raças inferiores como a do matemático indiano.

“Não acredito na sabedoria imemorial do Oriente, mas acredito em você”, diz Hardy a Ramanujan

O exemplo de Ramanujan pode ser usado para apoiar a hipótese de que a linguagem matemática é algo inscrito no cérebro de todos os seres humanos. Como Mozart fazia com a música, Ramanujan tinha a capacidade de fazer brotar do seu interior fórmulas que serviam para explicar a natureza. Milhões de anos de evolução teriam criado as estruturas neurais que servem para entender o mundo e, no caso de Ramanujan, permitiam descrevê-lo com as equações mais sofisticadas.

O brilho do matemático indiano foi breve. Seus resultados e o apoio da Hardy o levaram à Royal Society e a ser membro do Trinity College, mas não aproveitaria muito essas honras. Em 1920, com 32 anos e somente sete depois de ter enviado a carta que o levou à Inglaterra, uma tuberculose que alguns atribuem em parte ao seu trabalho extenuante acabou com sua vida

ORIGEM DO TEXTO http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/29/ciencia/1461947303_754418.html

quarta-feira, 30 de março de 2016

Professor, o foco do sistema educacional finlandês

Sanni Grahn-Laasonen esteve em São Paulo para falar sobre novas tendências no currículo

Em entrevista ao Carta Educação, ministra da Educação da Finlândia explica que segredo está no alto nível de formação dos docentes e na liberdade que eles têm em sala de aula

por MARSÍLEA GOMBATA 30 de março de 2016

À frente do Ministério da Educação e Cultura desde maio de 2015, Sanni Grahn-Laasonen se orgulha em dizer que a Finlândia não tem como norte testes amplos e padrões, mas faz um trabalho de formiguinha, dia a dia, com uma figura central no sistema educacional: o professor. “Não temos testes padrões na Finlândia. E eu diria que não estamos fazendo as coisas para nos sairmos melhor no Pisa. Estamos focados em ensinar, em elementos, por exemplo, que podem melhorar a educação de professores e promover a liberdade desses ao ensinar”, disse em entrevista ao Carta Educação, durante a rápida passagem por São Paulo, onde participou do evento Finlândia: Novas tendências em Educação, no Colégio Rio Branco, ao lado de de reitores de universidades finlandesas.

Mestre em Ciências Sociais, Sanni tem 32 anos e foi ministra do Meio Ambiente antes de ocupar a pasta de Educação. Ciente de a educação é não somente o caminho para mudanças estruturais no Brasil e na América Latina, mas também alicerce de um Estado de bem-estar social, ela insiste que a chave para um bom sistema educacional passa pelo alto nível de formação do corpo docente. “Para que alguém se torne professor na Finlândia, tem de ter um nível bom, com cinco anos de formação que contemplam dois de mestrado. Então, sabemos que podemos contar com eles, não precisamos nos preocupar, pois sabem o que estão fazendo. Mas isso é possível graças a um nível de formação alto exigido dos professores”, observa. “O segredo do nosso sistema educacional são os professores. Eles fazem seu trabalho com liberdade, não dizemos quais livros ou materiais usar ou como devem ensinar, se dentro ou fora da sala de aula. Os melhores estudantes acabam se tornando professores.“

Leia a entrevista a seguir:

Carta Educação – Os países escandinavos sempre foram vistos como exemplos para os latino-americanos, especialmente no que diz respeito a temas relativos a um Estado de bem-estar social (educação, saúde etc), cujas bases aqui estão muito aquém. Quais seriam os elementos necessários para a criação de sistema de proteção social? De que maneira a igualdade trazida pelo estado de proteção social ajuda a ter uma educação de melhor qualidade?

Sanni Grahn-Laasonen – Acredito que tudo começa com a educação. A educação cria o Estado de bem estar social, promove direitos humanos e democracia.  Educação é também a base para o crescimento econômico, já que para um país se tonar inovador precisa ter um sistema educacional bom. Então eu começaria focando nisso, na educação desde a primeira infância. Na Finlândia, por exemplo, temos jardins da infância, educação primária e educação básica totalmente grátis e um dos nossos valores mais fortes é o da igualdade. Ou seja: não importa o conhecimento que se tem, o tipo de família da qual vem, quem são seus pais, onde se vive, todos têm uma educação excelente. Então não é apenas para pais que têm dinheiro e querem oferecer uma boa educação a seus filhos, mas para todos. Toda criança tem acesso a uma educação de alta qualidade, e todas as escolas são boas, não interessa a cidade ou região sobre a qual estamos falando na Finlândia.

CE – Um dos tópicos sobre o qual a senhora e sua comitiva vieram falar é a formação de professores. Os docentes na Finlândia são supervalorizados, ganham bem, são escolhidos entre os melhores alunos, e possuem bastante liberdade, uma vez que escolhem a maneira como ensinam, o material e o espaço a serem utilizados no aprendizado. Desde quando o sistema funciona assim? Não existe o risco de haver, portanto, formações e processos de aprendizagem diferentes?

SGL – É necessário se ter professores excelentes para existir um bom sistema educacional. Para que alguém se torne professor na Finlândia, tem de ter um nível bom, com cinco anos de formação que contemplam dois de mestrado. Então, sabemos que podemos contar com eles, não precisamos nos preocupar, pois sabem o que estão fazendo. Mas isso é possível graças a um nível de formação alto exigido dos professores. Eu acho que temos de confiar neles e mostrar isso, para que tenham liberdade e possam, ao mesmo tempo, ter responsabilidade.  Tudo é baseado na confiança.

Somos um dos mais bem posicionados países no Pisa (Programme for International Student Assessment), da OCDE. Mas com educação sempre temos de ter um olhar adiante. O segredo do nosso sistema educacional são os professores. Eles fazem seu trabalho com liberdade, não dizemos quais livros ou materiais usar ou como devem ensinar, se dentro ou fora da sala de aula. Os melhores estudantes acabam se tornando professores. Se me pedissem conselho de algum país, eu diria: invista em professores e em sua educação.

CE – Existe uma grande discussão em torno do currículo escolar: se ele deve ser compartimentado em disciplinas como matemática, química, biologia, gramática ou se deve trabalhar dentro de uma perspectiva interdisciplinar. Desde o início do ano, os centros de ensino da Finlândia começaram a aplicar um novo método conhecido como “phenomenon learning”. Como funciona esse método e de que maneira ele prepara o aluno para um pensamento transdisciplinar?

SGL – Isso não significa que deixamos de ter disciplinas. Continuamos a tê-las, mas o novo é que estamos tentando trazer coisas que estão acontecendo na vida real para a sala de aula, para estudar do que se trata segundo diferentes pontos de vista. Então escolhemos um fenômeno – mudança climática ou crise econômica, por exemplo – e então você começa a olhar o fenômeno a ser estudado por diferentes perspectivas, seja o background de História, Biologia ou Matemática que você tem. É um tipo de mecanismo que ajuda os alunos a aprender a pensar.

E dentro das disciplinas, estamos trabalhando em um novo currículo que fala sobre diferentes habilidades, com diferentes tecnologias e espaços de aprendizagem. Não é apenas trazer computadores para as salas, mas saber como utilizar tecnologias como games e outras ferramentas para os alunos se sentirem motivados a aprender.

Na Finlândia, é importante dizer, os políticos não elaboram o currículo educacional. Quem é responsável por isso é um conselho nacional, composto em sua maioria por experts. Eu tenho orgulho disso, pois não acho que políticos deveriam fazer esse tipo de coisa.

CE – Todos os anos, a Finlândia apresenta uma boa colocação no Pisa. Como funcionam os sistemas de avaliação de alunos no País? Como a senhora vê o Pisa, ao colocar no mesmo grupo países com estruturas tão distintas?

SGL – Não temos testes padrões na Finlândia. E eu diria que não estamos fazendo as coisas para nos sairmos melhor no Pisa. Estamos focados em ensinar, em elementos, por exemplo, que podem melhorar a educação de professores e promover a liberdade desses ao ensinar.

Não queremos provas padrões na Finlândia porque queremos que o professor tenha espaço para ensinar, que os estudantes possam aprender. Todo o foco deveria estar voltado para aprender e ensinar. E disso virão os bons resultados.

CE – O mestrado na Finlândia era de graça até este ano, mas a partir do ano que vem qualquer aluno estrangeiro que não seja de países da União Europeia passa a pagar para estudar lá. Por que a decisão de começar a cobrar?

SGL – A maioria dos países ao redor do mundo cobra, então por isso resolvemos cobrar. Ainda temos uma bolsa para alguns estudantes de fora. E esperamos conseguir muitos outros, de diferentes lugares do mundo.

CE – Como enxerga a discrepância entre homens e mulheres na América Latina, onde as diferenças de gênero e falta de representatividade das mulheres ainda é gritante – apesar de representarem mais de 50% da população brasileira, as mulheres são menos de 10% das vagas da Câmara dos Deputados e pouco mais de 15% das do Senado. Isso é reflexo do sistema educacional? Como mudar isso?

SGL – Eu acredito que sim e, de novo, acho que a educação poderia ajudar a mudar isso. A Finlândia é um dos primeiro países no mundo a dar às mulheres o direito de votar. No Parlamento creio que somos cerca de 84 mulheres dentre 200 membros legislativos, ou seja, somos quase metade da Casa. Na Finlândia, eu não tenho de fazer escolhas entre família ou carreira, eu posso ter ambas. Eu tenho uma filha de 3 anos de idade, e meu marido também trabalha fora e cuida dela. Na Finlândia isso é possível. O que eu diria para o mundo inteiro é: mulheres, podemos fazer qualquer coisa, não deveria haver barreiras no mundo para nós.

ORIGEM DO TEXTO: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/professor-o-foco-do-sistema-educacional-finlandes/

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Ler para as crianças


O que está escrito tem pausas, silêncios e ritmos próprios

Ao ouvir histórias, os bebês, assim como as crianças, têm seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social estimulado

por NINFA PARREIRAS

O que está escrito tem pausas, silêncios e ritmos próprios
Por que as crianças gostam de ouvir histórias? Como os adultos podem ler contos e poemas para elas? A história contada é diferente da lida? São questões que devem ser discutidas entre os educadores e também no seio das famílias. A leitura é um alimento necessário para a participação na vida social e para a formação cidadã da criança.

Ao aprender a ler, ela se apropria do mundo ao seu redor. Isso se dá quando diferentes práticas de leitura acontecem, com a aproximação a uma diversidade de livros.

As crianças hoje são levadas para a escola cada vez mais cedo, antes mesmo de completarem os primeiros anos, e a escola passa a ser o lugar onde ela precisa brincar, aprender e ser cuidada. Brincar é uma atividade necessária para todos.

Na infância, a brincadeira possibilita o exercício da fantasia e facilita a comunicação. Mesmo que não haja brinquedos, a criança os inventa.

Leia atividade didática para a Educação Infantil sobre leitura

Expectativas de aprendizagem: Familiarizar-se com diferentes suportes: revistas, livros, jornais; Acompanhar a leitura de textos lidos em voz alta por adultos

Leia atividade completa
Desde pequena, ela estabelece uma relação com algum objeto ao seu redor, que pode ser um brinquedo ou também um livro. É por meio do contato com esses objetos que ele vai conhecer as coisas e as pessoas: ao tocar, ao levar à boca, ao sentir o que existe perto dele. Ele descobre ruídos, texturas, sabores, cheiros, cores.

Ao mesmo tempo, a entrada no universo da linguagem se dá antes mesmo de a criança entrar para a escola. A maneira como os adultos a cuidam: o olhar, os gestos, os ruídos (desde os sons sem sentido às cantigas), tudo isso inaugura o processo da aproximação à leitura. Antes da comunicação verbal, o bebê aprende a comunicação não verbal, revelada pelos modos como os adultos se interagem com ele.

Em pesquisa recente da Fundação Itaú Social, 96% dos brasileiros consideram importante ou muito importante o incentivo à leitura para crianças pequenas, de até cinco anos. Porém, apenas 37% dos entrevistados costumam ler livros ou histórias para elas. Por que poucos adultos leem para as crianças? Quais receios ou falta de informação podem desencadear esses resultados?

A leitura não atrapalha o desenvolvimento escolar da criança, ela é uma ferramenta para os pais e educadores. As crianças precisam ouvir histórias para aguçar sua imaginação. Isso facilita o processo de letramento, de aquisição da leitura e escrita autônomas. Ao ouvir histórias, seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social é estimulado.

A escola, como um espaço cultural, tem um potencial para educar, entreter, alimentar, cuidar dos alunos. Os educadores podem e devem criar situações lúdicas em que os sons e as palavras são os instrumentos para introduzir a criança no mundo da literatura.

Ao cantar versos para as crianças ou juntamente com elas, o educador traz um ritmo e uma melodia que são repetidas por elas.

Novas palavras e novos sons são descobertos. Ao fazer uma roda e ler uma história ou um poema, o educador estabelece um momento de encantamento e de descobertas. A criança espera a hora do conto ou a rodinha de histórias. Isso pode ser uma rotina na prática escolar.

Muitas vezes, por falta de informação ou de esclarecimentos, o contato com a leitura se dá de uma forma mecânica e pouco natural. Ao cantar (cantigas de ninar e de roda, adivinhas, parlendas) para os bebês e crianças, os adultos contribuem para a aproximação deles à literatura.

A tradição oral revela um manancial de expressões que podem iniciar os pequenos no universo literário. Ao mesmo tempo, a cultura letrada está cada vez mais perto de nós e o direito à leitura literária deve ser de todos.

A literatura, por ser uma invenção em palavras, abre um leque de possibilidades interpretativas que o texto informativo não tem.

Antes de a criança frequentar a escola, os pais deveriam envolvê-la com a literatura, seja por meio dos acalantos, das cantigas, seja por meio dos livros de histórias e de poesia. É importante a criança ouvir o texto lido. Um conto lido é diferente de uma história contada.

O que está escrito tem pausas, silêncios, ritmos próprios da língua escrita. A voz e a cadência da leitura marcam uma relação de confiança, de acolhimento para quem ouve.

Para tanto, é necessário que o local seja preparado para o conforto das crianças, estejam sentadas ou deitadas. O adulto deve ler e ao mesmo tempo olhar para as crianças.

Não deve se preocupar com conteúdos pesados (a violência, por exemplo) que estejam em textos ficcionais. A ficção é uma coisa que foi criada para divertir, distrair quem lê.

As crianças sabem que nos livros há histórias cheias de encantamento, de fantasia, de terror. Elas precisam disso para viver, para elaborar as vicissitudes da vida cotidiana.

Quando sonhamos, reproduzimos imagens e sensações que fogem ao nosso controle, à nossa razão. As histórias ficcionais são feitas também desse material dos sonhos: da desrazão, daquilo que não tem explicação racional.

Esses elementos presentes na literatura ajudam as crianças a entenderem os mistérios da nossa existência: o crescimento, as mudanças no corpo, as separações e as faltas.

As famílias devem se comprometer com o trabalho desenvolvido pela escola. O educador pode convidar os responsáveis pelas crianças para encontros com a leitura de obras selecionadas. Por sua vez, pedir a criança para trazer um livro de casa é uma maneira de conhecer o repertório da família.

Um convite aos pais para ler para as crianças ou contar uma história (quando não conseguem ler) pode ser um passo para um vínculo entre a escola, a família e a leitura.

Uma vez por mês contar com a presença de um familiar que vai ler uma história e conversar pode ser a consolidação de um trabalho literário que aproxima a criança, a escola e a família da literatura.

* Ninfa Parreiras é psicanalista, professora e autora de obras literárias e de ensaios para adultos, como O Brinquedo na Literatura Infantil: Uma Leitura Psicanalítica (Biruta) e Do Ventre ao Colo, do Som à Literatura: Livros para Bebês e Crianças (RHJ)

ORIGEM DO TEXTO http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/ler-para-as-criancas/

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Você sabe estudar?

O autoteste provou ser o método de estudo mais positivo. Já grifar trechos do texto é pouco eficaz

Pesquisa analisou o impacto de diferentes métodos de estudo na aprendizagem. Grifar e fazer resumos são técnicas pouco eficientes

 Uma má notícia para estudantes acostumados a estudar na véspera das provas. Aquelas oito ou mais horas debruçados sobre os livros madrugada adentro nem de longe serão tão produtivas quanto as horas de alunos que estudaram talvez a metade do tempo, mas o fizeram de forma espaçada.

Essa é uma das conclusões do estudo americano “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology” (“Melhorando a Aprendizagem dos Alunos com Técnicas Eficazes de Aprendizagem: Caminhos promissores da psicologia cognitiva e educacional, em tradução livre”), publicado no periódico científico Psychological Science in the Public Interest.

O levantamento analisou dez diferentes estratégias comumente utilizadas para descobrir quais demonstravam resultados mais ou menos eficazes para a aprendizagem.


“Lemos centenas – se não mais de mil – estudos sobre o tema e sintetizamos os resultados, procurando as limitações de cada técnica”, explica, a Carta Educação, John Dunlosky, membro do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Kent, em Ohio, e um dos autores da pesquisa.

ENTRE OS MÉTODOS DE ESTUDO POUCO EFICAZES, DESPONTARAM PRÁTICAS POPULARES E CONSOLIDADAS DENTRO DAS ESCOLAS COMO RESUMIR, RELER E GRIFAR TEXTOS.
“Na verdade, quase todos os alunos releem seus materiais de estudo, mas o problema é que quando fazem isso, quase sempre, só passam os olhos por cima e não processam o conteúdo profundamente, o que é fundamental para a compreensão de temas mais difíceis”, explica Dunlosky.

O pesquisador aponta que o problema não é intrínseco aos métodos, mas está na maneira como são praticados.

“Claro que resumir pode ser uma habilidade importante em si e eu nunca tiraria um marcador de texto de um estudante – eu até tenho um favorito. Mas, os alunos precisam entender que o uso de um marcador para destacar conteúdos é apenas o início da jornada de aprendizagem”, diz.

Em outras palavras, eles precisarão voltar e estudar o material destacado, utilizando estratégias eficazes se realmente querem aprender.

Por outro lado, o autoteste mostrou-se uma das técnicas de estudo mais eficientes e é ainda mais benéfico quando seguido de um feedback (isto é, da verificação da resposta correta e consideração do por que ela está correta e as outras não) e espaçado ao longo do tempo.

“Muitos alunos viram a noite antes dos exames, o que leva à má retenção da informação – eles esquecem quase tudo logo após a prova!”, conta o professor. Mas, ao fazer sessões de estudo mais curtas e bem distribuídas ao longo do tempo, os estudantes podem realmente impulsionar as chances de retenção do que aprenderam.

“A chave é estudar o mesmo conteúdo (usando uma estratégia eficaz como testar a si mesmo) várias vezes para ter os maiores benefícios e sucesso a longo prazo”, aconselha.

Um dos critérios usados para avaliar a pertinência das estratégias foi ver se, de forma geral, elas funcionavam para todas ou apenas para algumas pessoas. Assim, uma estratégia como desenvolver imagens mentais recebeu baixas pontuações, porque algumas pessoas relataram dificuldades em fazer isso.

“Logo, essa é uma estratégia que não funciona para todos. No entanto, testes e estudos espaçados podem beneficiar praticamente todo mundo”, explica o pesquisador.

Se essas técnicas se mostram, na prática, tão exitosas, por que alunos e professores continuam a ignorá-las?

“Acho que uma dificuldade está no fato de os programas de formação de professores não enfatizarem essas estratégias e como elas podem ser facilmente aplicadas para a melhoria da aprendizagem e desempenho dos alunos. Dado o quão fácil é usar estratégias como estudos espaçados e testes práticos, no entanto, estou otimista de que muitos professores vão agora usá-los em suas aulas”, diz Dunlosky, acrescentando que os métodos não são uma solução milagrosa para as dificuldades de aprendizagem dos alunos, mas que podem ajudar.

Questionado se os resultados do estudo significam que milhares de escolas ao redor do mundo estão desperdiçando, de forma errônea, seus esforços, Dunlosky pondera. “Isso é difícil de dizer, mas me parece que as estratégias mais eficazes estão sendo subutilizadas.”

O pesquisador lembra ainda que métodos ultrapassados de estudo não são exclusividade da Educação Básica. “Infelizmente, mesmo professores universitários mantêm alguns dos mesmos equívocos sobre o que funciona melhor, o que ajuda a perpetuar o problema”, conta.

A expectativa é de que não somente os estudantes, mas também professores e educadores possam se valer das informações reveladas pelo estudo para aperfeiçoar o ensino e o cotidiano escolar, de forma geral.

“Para os professores, recomendo começar cada classe com uma revisão diária do conteúdo, o que implicaria um teste breve com os alunos sobre o tópico mais importante visto na aula anterior”, recomenda Dunlosky.

Segundo o pesquisador, essa revisão deve envolver um teste “não decisivo”, ou seja, que não comprometa o aluno, e precisa ser seguido por um feedback, em que o professor explique a resposta correta e por que outras respostas comumente dadas não estão corretas.

“Esses aquecimentos vão ajudar os alunos a aprender o material, além de trazer o benefício adicional de reduzir a ansiedade de quando eles se sentam para fazer um teste mais decisivo”, explica o professor.

ORIGEM DO TEXTO  http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/voce-sabe-estudar/

O matemático peruano que resolveu um problema de quase 300 anos


Quando tinha oito anos, o peruano Harald Helfgott se colocava questões matemáticas que talvez só fossem feitas aos seus colegas bem mais adiante, no ensino médio. Por que 0,99999 até o infinito pode ser igual a 1? Como achar a raiz quadrada de -1? Como achar a raiz quadrada de um número imaginário? Harald encontrava as respostas e se sentia maravilhado: "Era um grande prazer responder às minhas próprias perguntas no colégio", disse ele, em entrevista à BBC Mundo. O matemático Helfgott, nascido em Lima, em 1977, frequentou uma escola na capital peruana e, com o passar dos anos, potencializou sua curiosidade matemática.

 O resultado disso foi uma carreira brilhante. Uma bolsa de estudos na Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, acabou resultando em um doutorado em Princeton e um pós-doutorado em Yale, essas últimas, duas das mais respeitadas universidades do país. Depois disso, Helfgott tornou-se pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, na França. Em 2015, Helfgott tornou-se o primeiro latino-americano e também o cientista mais jovem a ganhar o Prêmio de Pesquisa Humboldt, concedido pela Fundação Alexander von Humboldt, da Alemanha. Ele receberá US$ 3,9 milhões por ter respondido uma pergunta que vinha desafiando matemáticos do mundo inteiro há quase trezentos anos: É verdade que todo número ímpar maior do que cinco pode ser expresso como uma soma de três números primos? A pergunta fazia parte da chamada Conjectura Fraca de Goldbach.

Em 1742, o matemático prussiano Christian Goldbach enviou uma carta a seu colega suíço Leonhard Euler na qual propunha que todo número par maior do que dois podia ser expresso como a soma de dois números primos e que todo número ímpar maior do que cinco podia ser expresso como a soma de três números primos - números divisíveis por apenas quatro números (o próprio, 1 e os respectivas negativos), com por exemplo, 3 e 17. Nem Goldbach nem Euler foram capazes de provar as afirmações, por isso permaneceram como suposições, ou conjecturas. A segunda ficou conhecida como "fraca" porque estava contida na primeira, que passou a chamar-se "forte". "O trabalho sério para provar a conjectura fraca começou no início do século 20", disse Helfgott. "Antes, não se sabia nem por onde começar".

Em 2005, o matemático começou a estudar o trabalho de outros cientistas que haviam provado a conjectura fraca para determinados números. O enunciado de Goldbach soava simples, mas prová-lo para todos os números ímpares até o infinito era algo muito complexo. Helfgott começou a buscar uma prova em 2006. Em fevereiro de 2012, já bem perto de encontrar a prova, a rotina do matemático era a seguinte: levantava-se muito cedo todos os dias para se dedicar à sua missão e chegava ao laboratório durante a tarde. Só então conferia a caixa de entrada do correio eletrônico e fazia buscas de informações. Isso porque havia suspendido a conexão com a internet em casa. Não queria se distrair. À noite, voltava a se concentrar no trabalho da conjectura até a hora de dormir. Em junho de 2013, sete anos depois de ter iniciado a busca, Helfgott finalmente encontrou a resposta. Em um trabalho com 79 páginas, demonstrou que a Conjectura Fraca de Goldbach estava certa. Para que serve a conjectura?

A demonstração da conjectura, por si só, talvez não sirva para nada, ele explicou. "Por outro lado, as ideias e ferramentas usadas para se obter a demonstração serão úteis para a teoria dos números - entre outros usos adicionais", disse Helfgott. Graças ao seu trabalho, o matemático peruano foi convidado para dar aulas na Austrália e em vários outros países da América, Europa e Ásia. Agora, está fazendo pesquisas sobre a teoria dos números no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro.

 Em seu tempo livre, o matemático pretende cozinhar pratos peruanos para os amigos e voltar às aulas de tango.

E será que ele pretende tentar demonstrar a Conjectura Forte de Goldbach? "Falta desenvolver ferramentas, ideias para que possamos prová-la", explicou.

"Não acredito que isso esteja ao alcance da comunidade matemática no momento."

Origem do texto:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151004_matematico_peruano_helfgott_mv

Aprendendo a aprender

 "Aprender Matemática é muito parecido com aprender a tocar um instrumento – é preciso prática diária, ao lado de lições teóricas", defende Barbara


POR TORY OLIVEIRA


Professora de 700 mil alunos, Barbara Oakley afirma que a prática é mais importante do que a teoria na hora de aprender Matemática


Assim como muitos de nós, Barbara Oakley, 60 anos, professora de Engenharia na Universidade de Oakland, em Rochester, no estado norte-americano de Michigan, era má aluna em Matemática na escola.

Por causa da experiência ruim, nunca gostou da disciplina e entrou para o Exército dos Estados Unidos assim que pegou o diploma de Ensino Médio, determinada a estudar línguas, mais especificamente, o russo.

Ao fim da experiência, porém, percebeu que seus colegas engenheiros do exército conseguiam resolver problemas com mais facilidade e tinham mais perspectivas de emprego do que ela.

Assim, contra todas as expectativas, enveredou pelo campo das ciências exatas e, a partir de suas próprias experiências e estudos na área de neurociências, desenvolveu técnicas para “aprender a aprender”.



Não por acaso, esse é o título do livro recém-lançado no Brasil pela editora Nova Mídia e também o do curso massivo online que Barbara desenvolveu em parceria com o professor Terrence Sejnowski, o terceiro mais popular da plataforma Coursera, com 700 mil alunos em 200 países.

Nessa entrevista, a californiana fala sobre sua trajetória, a experiência ensinando um curso a distância e dá dicas para melhorar a aprendizagem.

Carta Educação: Por que é necessário “aprender a aprender”? Em poucas palavras, como é possível fazer isso?

Barbara Oakley: Você já tentou resolver um problema e se viu cada vez mais frustrado, até finalmente desistir – e então sentiu-se mal consigo mesmo por desistir em vez de resolver o problema? Não precisa ser assim. Muitas vezes, para resolver problemas mais difíceis, você precisa desistir – apenas quando sua atenção está fora do problema é que outras redes do seu cérebro são ativadas para permitir que você ache a solução. Isso é aquele momento “eureca!” que você sente depois, quando a solução para o problema surge repentinamente em seu cérebro. Se você soubesse mais sobre como o cérebro funciona, você não teria de sofrer tantas frustrações ao estudar tópicos mais difíceis. Há muitas outras formas de saber mais sobre como nós aprendemos e que podem ser úteis no processo de aprendizagem. Por isso escrevi o livro Aprendendo a Aprender e é também por isso que Terry Sejnowski e eu criamos o MOOC de mesmo nome.

CE: No seu livro Aprendendo a Aprender, a senhora descreve sua experiência como uma estudante que não se dava muito bem nas aulas de Matemática. Como redescobriu a disciplina e acabou tornando-se professora de Engenharia?

BO: É simples – o mundo está mudando. Atualmente é muito mais difícil conseguir um emprego sem algum tipo de know-how técnico. Eu alistei-me no exército logo depois de terminar o Ensino Médio com o objetivo de aprender um idioma. E aprendi russo. Mas descobri que os engenheiros com quem trabalhava no exército eram ótimos resolutores de problemas – e tinham perspectivas profissionais melhores que as minhas. Assim, quando dei baixa do exército aos 26 anos, decidi tentar expandir meus horizontes e enveredei pelas áreas da Matemática e Ciências, em vez de seguir minha paixão natural pela linguagem.
Apesar de engenharia parecer alienígena para a minha personalidade, descobri que, quando eu aplicava técnicas para aprender idiomas para me ajudar a entender Matemática e Ciência, isso funcionava como uma mágica. Como consequência, e para minha surpresa, acabei tornando-me professora de Engenharia!


Hoje professora, Barbara tinha dificuldades com ciências exatas na escola
CE: No Brasil, os resultados dos alunos em Matemática no Pisa são um dos nossos maiores desafios. Por que estudantes em todo o mundo têm dificuldades para aprender Matemática?

BO: Pessoas no mundo todo muitas vezes sentem dificuldade e praticam ao longo de muitos anos a fim de aprender a tocar um instrumento musical, mas ninguém acha que isso é memorável. Aprender Matemática é muito parecido com aprender a tocar um instrumento – é preciso prática diária, ao lado de lições teóricas. Quando não há prática diária – e apenas lições teóricas – as pessoas pensam que Matemática é mais difícil do que ela é realmente.

CE: Recentemente, a senhora escreveu que “o desenvolvimento de uma verdadeira expertise envolve uma prática extensa de modo que a arquitetura neural fundamental que possibilita a expertise tenha tempo para crescer e se desenvolver. Isso envolve muita repetição em diversas circunstâncias”. A senhora acha que os professores de Matemática focam muito na teoria da Matemática, em vez de exercícios?

BO: Sim. Ensinar conceitos leva os professores a pensar, erroneamente, que os estudantes realmente entenderam o material, quando, na realidade, os alunos muitas vezes apenas entenderam uma pequena parte do conteúdo teórico, que desaparece sem a prática. Além disso, ensinar conceitos é mais divertido para os professores do que corrigir lição de casa – os professores são levados a pensar que suas explicações são centrais para os alunos. É a prática que solidifica o entendimento e possibilita a criação de uma expertise verdadeira.
Muitos estudantes não adquirem prática o suficiente com a Matemática para se sentirem confortáveis com o conteúdo e se tornarem conhecedores do tema. Apenas 20 e poucos minutos de prática diária pode ajudar a construir um conhecimento verdadeiro do assunto. Em outras palavras, se as pessoas que tocam algum instrumento musical fossem ensinadas a entender as explicações sobre a teoria, em vez de ter muitas oportunidades para praticar sozinhas, muitas pensariam que não têm uma habilidade natural para tocar violão – que eles são “violãofóbicos” com nenhum talento para a música. O que não seria verdade!

CE: Como avalia o trabalho dos professores de Matemática hoje em dia? O que eles podem fazer, em sua opinião, para melhorar o aprendizado dos seus alunos?

BO: Uma das melhores coisas que os professores podem fazer para ajudar seus alunos é testá-los sempre que possível. Pesquisas mostram que, se os estudantes passarem uma hora estudando, em comparação com uma hora resolvendo testes, eles aprenderam mais com o último. Dou aos meus estudantes da graduação em Engenharia um teste, por exemplo, toda vez que eles entram em sala. Assim, eles se mantêm em dia como o material e conseguem ser bem-sucedidos.

CE: Que elementos destacaria como relevantes para melhorar as técnicas de estudo?

BO: Pratique ativamente o conteúdo você mesmo – não apenas olhe para o problema, veja como é resolvido e deixe por isso mesmo. Explique ideias difíceis em voz alta, como se estivesse ensinando um amigo imaginário. Não só os exercícios da lição de casa uma vez – trate-os como músicas que você precisa praticar várias vezes ao dia até que as soluções surjam naturalmente. Ao ler materiais mais difíceis, não grife várias frases e releia várias vezes. Em vez de grifar, veja se você consegue rememorar as ideias. Isso funciona como mágica para ajudá-lo a entender e lembrar o que você está estudando.

CE: Por que a senhora recomenda o método Kumon?
BO: Recomendo o método Kumon para Matemática, porque dá um reforço extra na prática matemática que, infelizmente, não existe em muitos países do mundo. O Kumon é inteligentemente pensado para gradualmente construir um aprendizado de fato. O fato de especialistas desconfiarem do Kumon nos dá uma boa pista sobre o porquê do Brasil ir mal do Pisa. Olhe para os professores de Engenharia nos EUA. Grande parte deles vem de países onde a prática e a repetição são incluídas como partes importantes do aprendizado matemático nos primeiros anos da escolaridade. Se o Brasil quer atingir patamares de excelência nesses temas, seria muito bom que o método Kumon fosse utilizado.

CE: Quais conselhos daria a alguém que está tendo dificuldades em aprender Matemática?
BO: Pratique um pouco todos os dias. Aproveite nosso curso online e gratuito Aprendendo a Aprender no Coursera e veja você florescer!

ORIGEM DO TEXTO: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/aprendendo-a-aprender/

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Professores não recebem capacitação para o uso pedagógico da internet

67% dos docentes de escolas públicas relataram ter aprendido sobre as TIC por conta própria
POR THAIS PAIVA

Levantamento TIC Educação 2014 aponta a falta de infraestrutura e o gargalo na formação dos professores para o uso das TIC em sala de aula como entraves para uma educação mais conectada

O acesso à internet nas escolas urbanas do País está praticamente universalizado. O computador está presente em 97% das instituições privadas e em 92% das públicas. Entretanto, quando a amostra é esta última, é ainda preciso superar o desafio da qualidade da conexão. É o que nos mostra a pesquisa TIC Educação 2014, lançada em setembro pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Realizado desde 2010, o levantamento mapeia e quantifica o uso das chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nas escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental e Médio do País. Para chegar aos resultados, foram investigadas 930 escolas entre setembro de 2014 e março de 2015 e foram entrevistados 930 diretores, 881 coordenadores pedagógicos, 1.770 professores e 9.532 alunos.

Segundo o levantamento, a velocidade da principal conexão à internet em 33% das escolas públicas brasileiras é bastante limitada, ficando entre 1 a 2 megabits por segundo (Mbp/s). Quando a amostra são as escolas particulares, a velocidade média sobe consideravelmente – 39% das unidades apresentam uma conexão na ordem de 3 a 10 Mbp/s.

Além da questão de infraestrutura, outro empecilho para a implementação e disseminação de escolas mais alinhadas às inovações digitais está na formação dos professores. Segundo a pesquisa, apenas 37% dos docentes de escolas públicas que possuem formação no Ensino Superior cursaram disciplinas ou tiveram algum tipo de capacitação sobre o uso pedagógico das TIC durante a graduação. A maioria (67%) aprenderam a utilizar estas ferramentas por conta própria e 57% declararam ter aprendido fazendo cursos específicos sobre o assunto. Deste grupo, 75% pagaram a capacitação do próprio bolso.

Para Fabio Senne, coordenador de projetos e pesquisas do Cetic, mudar este cenário é fundamental para o melhor aproveitamento dos recursos digitais no ambiente escolar. “Para que a mudança aconteça, é essencial que ela perpasse a formação dos professores. Não só na formação continuada como também na formação inicial, no momento da graduação”, diz.

Outro dado que chama atenção é o fato de apenas 30% dos professores de escolas públicas terem declarado a sala de aula como principal local de uso das TIC. O local mais frequente de uso do computador e internet em atividades com os alunos continua sendo o laboratório de informática. O mesmo observa-se entre os alunos. Apesar de 87% dos estudantes de escolas públicas urbanas serem usuários de internet, esse contato só acontece dentro da escola para 41% dos jovens. Para 77%, o principal local de acesso continua sendo o domicílio.

“A internet ainda é mal vista no espaço escolar. Por exemplo, a imensa maioria das redes de wi-fi das escolas está fechada para os professores e alunos. Quando a escola tem rede wi-fi geralmente é destinada ao setor administrativo”, explica Senne. “Ainda há um buraco no uso pedagógico da rede. Por isso, é importante apoiar a construção de políticas públicas que incentivem isso”.

A boa notícia é que recursos educacionais digitais estão cada vez mais presentes no preparo de aulas ou atividades pelos professores. A TIC Educação 2014 mostra que 82% dos professores se valem das TIC para produzir conteúdos para as aulas, mesmo assim apenas 28% publicam ou compartilham conteúdos próprios a serem utilizados com os alunos na interne

ORIGEM DO TEXTO: http://www.cartaeducacao.com.br/tecnologia/apenas-37-dos-professores-foram-capacitados-durante-sua-graduacao-para-o-uso-pedagogico-da-internet/

domingo, 13 de setembro de 2015

OITO COISAS QUE APRENDI COM A EDUCAÇÃO NA FINLÂNDIA

Professores brasileiros passaram cinco meses em capacitação na Finlândia

POR
Paula Adamo Idoeta

Ensino finlandês é uma das referências mundiais em qualidade da educação
Dona de um dos sistemas de ensino mais elogiados do mundo, a Finlândia recebeu, de fevereiro a julho deste ano, 35 professores de institutos federais brasileiros para treinamento e capacitação.


Embora em 2012 o país nórdico tenha caído do topo para a 12ª posição do Pisa, o principal exame internacional de educação (o Brasil ficou na 58ª posição do ranking, entre 65 países), ele ainda é apontado pela OCDE – a entidade que aplica o Pisa – como "um dos líderes mundiais em performance acadêmica" e se destaca pela igualdade na educação, alta qualificação de professores e por constantemente repensar seu currículo escolar.


Os docentes brasileiros foram selecionados pelo programa Professores para o Futuro, do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Ministério da Educação), para passar cinco meses estudando a educação finlandesa.


A BBC Brasil conversou com quatro desses professores, para conhecer o que viram na Finlândia e saber se lições trazidas de lá podem facilitar seu trabalho em sala de aula e melhorar o aprendizado nas instituições públicas de ensino onde atuam.
Apesar das diferenças com o sistema brasileiro, os professores disseram ver como "pequenas revoluções" o que podem agregar do ensino finlandês em suas rotinas.
"Vou começar com um trabalho de formiguinha, mostrando aos meus colegas o que aprendi, gravando minhas aulas e adaptando (as metodologias) à nossa realidade e aos nossos estudantes", diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.


Os 25 institutos federais que enviaram professores ao país nórdico reúnem cursos de ensino médio, profissional e superior com ênfase em ciência e tecnologia.
Veja o que os professores aprenderam na Finlândia:


1. Usar mais projetos nas aulas


Os professores entrevistados pela BBC Brasil dizem que projetos elaborados por alunos e a resolução de problemas estão ganhando protagonismo no ensino finlandês, em detrimento da aula tradicional.
São as metodologias chamadas de "problem-based learning" e "project-based learning" (ensino baseado em problemas ou projetos). Neles, problemas – fictícios ou reais da comunidade – são o ponto de partida do aprendizado. Os alunos aprendem na prática e buscam eles mesmos as soluções.
"Os projetos são desenvolvidos sem o envolvimento tão direto do professor, em que os alunos aprendem não só o conteúdo, mas a gerir um plano e lidar com erros", diz Bruno Garcês, professor de Química do Instituto Federal do Mato Grosso, que pretende aplicar o método em aulas de experimentos práticos.

Professores brasileiros passaram cinco meses em capacitação na Finlândia
Os professores brasileiros visitaram, na Finlândia, cursos superiores baseados inteiramente nessa metodologia.
"Um curso de Administração tem disciplinas tradicionais no primeiro ano. Mas, nos dois anos e meio seguintes, os alunos deixam de ter professores, passam a ter tutores, formam empresas reais e aprendem enquanto desenvolvem o negócio", diz Francisco Fechine, coordenador do Instituto Federal de Tecnologia da Paraíba.
Não é uma estrutura que sirva para qualquer tipo de curso, mas funciona nos voltados, por exemplo, a empreendedorismo, explica Joelma Kremer, do Instituto Federal de Santa Catarina.
"E os alunos têm uma carga de leitura, para buscar (nos livros) as ferramentas que precisam para resolver os problemas."


2. Foco na produção de conteúdo pelos alunos


A resolução de problemas e projetos é parte de um ensino mais centrado na produção do próprio aluno. Ao professor cabe mediar a interação na sala de aula e saber quais metas têm de ser alcançadas em cada projeto.
"Nós (no Brasil) somos mais centrados em o professor preparar a aula, dar e corrigir exercícios. O aluno faz pouco. Podemos dar mais espaço para o aluno avaliar o que ele vai desenvolvendo", diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.
"No modelo tradicional de ensino, quem mais aprende é o professor. Lá (na Finlândia) é o aluno quem tem de buscar conteúdo, e o professor tem que saber qual o objetivo da aula. Para isso você não precisa de muita tecnologia, mas sim de capacitação (dos docentes)", agrega Joelma Kremer.

3. Repensar o papel da avaliação


Nesse contexto, a avaliação tem utilidade diferente, diz Kremer: "A avaliação está presente, mas os alunos se autoavaliam, avaliam uns aos outros, e o professor avalia os resultados dos projetos".
"Ao reduzir o número de testes (formais) e avaliar mais trabalhos em grupo e atividades diferentes, os professores têm um filme do desempenho do aluno, e não apenas a foto (do momento da prova)", diz Fechine.
"Conhecemos um professor de física finlandês que avaliava seus alunos pelos vídeos que eles gravavam dos experimentos feitos em casa e mandavam por e-mail ou Dropbox."


4. Usar tecnologia e até a mobília para ajudar o professor


A tecnologia não é parte central desse processo, mas auxilia o trabalho do professor em estimular a participação dos alunos finlandeses.
"Em vez de proibir o celular, os professores os usam em sala de aula para estimular a participação dos alunos – por exemplo, respondendo (via aplicativos especiais) enquetes que tivessem a ver com as aulas", conta Kremer.

Algumas salas têm mobília especialmente projetada para que os alunos possam ser agrupados ou separados

Salas especialmente projetadas e tecnologia amparam o trabalho do professor
"Isso torna a aula mais interessante para eles. E é complicado para a gente ficar dizendo, 'desliga o celular', algo que já começa estabelecendo uma relação de antipatia com o aluno."
Os professores brasileiros também conheceram algumas salas de aula com mobília especialmente projetada, diferente do modelo tradicional de cadeiras individuais voltadas à lousa.
"Muitas salas têm sofás, poltronas, mesas ajustáveis para trabalhos individuais ou em grupo e vários projetores", agrega Kremer. "É um mobiliário pensado para essa metodologia diferente de ensino."
Fechine vai reproduzir parcialmente a ideia no Instituto Federal da Paraíba, trocando as carteiras de braço por mesas que possam ser agrupadas para trabalhos.


5. Desenvolvimento de habilidades do século 21


A professora Giani Barwald Bohm conta que o ensino fundamental finlandês continua dividido em disciplinas tradicionais, mas focado cada vez mais no desenvolvimento de habilidades dos alunos, e não apenas na assimilação de conteúdo tradicional.
"(São desenvolvidas) competências do século 21, como comunicação, pensamento crítico e empreendedorismo", diz ela.
Para Fechine, estimular a independência do estudante é uma forma de romper o ciclo de "alunos passivos, que só fazem a tarefa se o professor cobrar, interagem muito pouco".

6. Intervalos mais frequentes entre as aulas


A Finlândia adota aulas de 45 minutos seguidas de 15 minutos de intervalo na educação básica – prática que Bruno Garcês acha que poderia ser disseminada por aqui. "Tira a tensão de ficar tantas horas sentado", diz.
Fechine também considera a ideia interessante, mas aponta que a grande carga horária no ensino médio brasileiro dificulta sua aplicação e lembra que na Finlândia ela é acompanhada de uma forte cultura de pontualidade. "As aulas começam no horário e aluno rapidamente entra na (rotina de) resolução de problemas."


7. Cultivar elos com a vida real e empresas


Muitos dos projetos dos estudantes finlandeses são tocados em parcerias com empresas, para aumentar sua conexão com a vida real e o mercado de trabalho, algo que Garcês acha que poderia ser mais frequente no Brasil.
"Aqui na área rural do Mato Grosso podemos ter uma interação maior com as fazendas locais, ministrando aulas a partir do que os produtores rurais precisam."
A vantagem disso é que o aluno vê sentido prático e profissional no que está aprendendo, explica Giani Barwald Bohm. "Ele desenvolve algo diretamente para o mercado de trabalho, que vai ter relevância para o próprio estudante e é contextualizado com as empresas locais."
Ela destaca também as competições de habilidades práticas desenvolvidas por escolas locais (um preparativo para a competição internacional WorldSkills, que neste ano será realizada em São Paulo, pelo Senai, entre quarta e sábado desta semana).
"As empresas são envolvidas na organização e acompanham os alunos no dia a dia e até ficam de olho para contratá-los depois."

Competição de habilidades entre alunos finlandeses; ensino é voltado para a prática


8. Formação mais prática e valorização do professor




A formação dos professores é apontada como a principal chave do sucesso do ensino finlandês. Os brasileiros observaram lá uma capacitação mais prática, voltada ao dia a dia da sala de aula, e mais interação entre o corpo docente.
"Algumas salas têm dois professores - um como ouvinte do outro caso seja menos experiente", relata Fechine.
"Há uma relação mais direta (entre os professores), com muita conversa entre quem dirige o ensino e quem dá aula", agrega Barwald Bohm.
"Além disso, há uma valorização cultural do professor lá, semelhante à de outras profissões. O salário é equivalente e as condições de trabalho dão bastante tempo para o planejamento das aulas", diz Bruno Garcês

ORIGEM DA FOTO E DO TEXTO: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150807_finlandia_professores_brasileiros_pai

ESCOLA MODERNA: TRÊS QUESTÕES CRUCIAIS EM DEBATE


POR VALERIA PERASSO


Uniforme, lição de casa e uso do computador são pontos que geram debates


Quando se trata de educação no mundo moderno, geografia, língua e currículo podem variar, mas algumas questões são universais.
Entre elas, o debate em torno do uso de uniforme, da dose certa de lição de casa e da adoção do livro em vez do computador em sala de aula.
Saiba o que as experiências escolares em diversos países, pesquisas e estatísticas revelam sobre essas questões.


1 → Uniforme escolar: conveniência ou coerção?


O uso ou não de uniforme escolar pode revelar muito sobre a política de um país.
Leia Também: Oito coisas que aprendi com a educação na Finlândia
Na Inglaterra, ele foi adotado de forma mais ampla no século 16, durante o reinado de Henrique 8º. Consistia de um casaco longo de cor azul. Esse era o pigmento mais barato à disposição na época e seu uso entre estudantes simbolizava humildade.
Leia Também: Exame internacional desfaz 7 mitos sobre a eficiência da educação
Hoje, a maioria das escolas no Reino Unido exige que alunos usem uniforme. No entanto, o governo britânico determina que escolas considerem questões práticas e financeiras ao adotar o uniforme, e que pais, alunos e comunidade sejam consultados.



Na França, o uso de uniforme escolar deixou de ser obrigatório desde a década de 1960. E o uso de véus, lenços cobrindo a cabeça e turbantes, assim como o uso de "símbolos religiosos ostensivos" é proibido em escolas públicas.
Na Alemanha, uma proposta para que um único uniforme fosse adotado nacionalmente pelas escolas do país provocou ultraje em 2006. Muitos associaram a proposta ao regime nazista.


Em alguns países da América Latina, como Argentina e México, uniformes tendem a ser adotados principalmente por escolas particulares. Como resultado, seu uso adquiriu uma conotação de status educacional.

O uso do uniformes escolares teve início na Inglaterra do século 15
No Brasil, também não há uma política nacional sobre o uso do uniforme.
O uso de uniforme é obrigatório na maioria das escolas africanas. Em Gana, desde 2013, o governo vem distribuindo uniformes gratuitamente à população. Tendo sido adotados no período colonial, uniformes também são a norma na maior parte do território asiático.


Mas será que a adoção de uma indumentária padronizada é positiva para os estudantes?


Muitos acreditam que regulamentos rigorosos quanto à indumentária ajudam a colocar as crianças em pé de igualdade socialmente, independentemente de seus sobrenomes ou situação financeira.


Outros pontos ressaltados pelos defensores do uniforme são que eles reforçam o sentimento de orgulho pela escola, aumentam a frequência e são um lembrete, sempre presente, das regras vigentes.


No campo oposto das opiniões, muitos dizem que códigos rígidos de indumentária cerceiam a individualidade e a liberdade de expressão. Também não são efetivos em prevenir intimidação e perseguição. E não conseguem "apagar" desigualdades sociais já que essas transcendem a forma como uma criança se veste, argumentam.
A educadora e psicóloga paulistana Ana Inoue, por sua vez, se posiciona mais ao centro: para ela, o uniforme traz mais vantagens do que desvantagens, mas é algo difícil de impor.


Integrante do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e diretora da ONG Instituto Acaia, Inoue disse à BBC Brasil que, em atividades fora da escola, como uma visita ao zoológico, por exemplo, o uniforme deveria ser obrigatório porque facilita a identificação das crianças.


Outro papel importante do uniforme, ela disse, é tornar todos iguais. Ela reconhece que diferenças socioeconômicas não serão eliminadas pela roupa, mas explicou que não é essa a ideia.


"O objetivo não é dissimular as diferenças sociais, mas passar a mensagem de que, no contexto da escola, todos são iguais. Todo mundo aqui é aluno e será tratado de maneira igual", disse Inoue.


2 → Livros, folhas avulsas ou tablets?


Em muitos países, o livro escolar vem, há vários anos, coexistindo ou sendo substituído por folhas avulsas impressas em copiadoras contendo textos e exercícios.


A revolução digital representa uma ameaça adicional ao antigo livro impresso, disponibilizando conteúdos da internet, por meio de computadores, nas salas de aula - em países "conectados", claro.


A relação entre livro escolar e desempenho acadêmico não é clara.

Pesquisa da Universidade de Cambridge mostra que livro escolar é chave para bom desempenho de alunos


Nos últimos anos, no Reino Unido, folhas avulsas vêm tendo preferência em relação aos livros escolares. No entanto, em 2014, o governo britânico determinou que escolas no país voltassem a adotá-los, em meio a temores de que a não utilização de livros estaria colocando estudantes britânicos em desvantagem em relação a colegas de outros países, principalmente, da Ásia.


No entanto, um consultor britânico em educação declarou recentemente que livros escolares deveriam ser abolidos dentro dos próximos cinco anos. Segundo ele, os recursos que a era digital oferece estão tornando o livro escolar algo obsoleto.
Um estudo feito por Tim Oates, da agência Cambridge Assessment, da University of Cambridge, na Inglaterra, indica que países com bom desempenho em testes internacionais tendem a insistir no uso de livros escolares como base para o ensino.
A Coreia do Sul e a Finlândia estão entre os países com índices mais altos de distribuição de livros escolares - mais de 95% dos estudantes recebem livros, segundo estatísticas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).


Os dois países também ocupam posição bem alta - quinta e sexta, respectivamente - na rodada mais recente de exames Pisa (sigla para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que comparou desempenhos de estudantes de 15 anos de idade em diversos países do mundo.


Entretanto, a frente "antilivro" responde que ele gera pressão econômica adicional sobre os pais em escolas onde livros não são oferecidos gratuitamente. Além disso, eles são produzidos "em massa", sem levar em conta necessidades diferenciadas de crianças em salas de aula diversas.


Poderiam os tablets aposentar os livros escolares? Pesquisas recomendam o contrário


Além disso, argumenta esse grupo, o livro escolar não tem como competir com tablets e tecnologias do tipo quando se trata de permitir o acesso conteúdos atualizados, ou de acompanhar a maneira como crianças consumem informação hoje em dia.


No Brasil, escolas da rede particular optam por soluções diversas, que podem envolver o uso de apostilas criadas especificamente para atender seus currículos, livros didáticos e também tecnologias variadas.


Na rede pública, o governo federal, Estados e municípios possuem programas de distribuição de tecnologias, incluindo tablets, para as escolas. Mas há problemas. Para que a tecnologia seja bem utilizada, várias outras coisas também são necessárias, disse a educadora Ana Inoue:
É preciso "ter rede elétrica compatível com o uso de tecnologia, ter banda larga, conteúdo bom (softwares, programas), professores que façam uso da tecnologia e um projeto de escola que inclua o uso desses recursos. E isso envolve, entre outras coisas, ter quem conserte e atualize os hardwares e softwares. Enfim, não é só uma questão de equipamento", disse Inoue."Equivale a achar que se tiver lápis e papel, todo mundo se alfabetiza".


3 → Tempo livre: Quantos dias? E quanta lição de casa?



França é conhecida por dar férias longas para estudantes
Dependendo de onde uma criança mora, ela pode ter até 75 dias letivos a mais no ano do que crianças de outros países.
Na China, o ano escolar tem mais de 260 dias. No Japão, são 243 e, na Coreia do Sul, 220.
Em Israel, Alemanha, Rússia e Zimbábue, o ano letivo tem 210 dias. Costa Rica, Bolívia e África do Sul têm os anos letivos mais curtos, com 180 dias ou menos.
A França também é conhecida por exigir menos dias de trabalho das crianças, dando a eles férias longas para evitar "estafa de sala de aula" - termo usado por um oficial do governo francês.


Ainda assim, o tamanho do calendário escolar pode ser enganador. O dia escolar em escolas francesas está entre os mais longos do mundo ocidental. Ou seja, as crianças vão à escola menos vezes, mas ficam muito mais tempo lá - oito horas diárias.


No Brasil, a lei determina que escolas ofereçam uma carga horária anual de pelo menos 800 horas, distribuídas por no mínimo 200 dias de aula. Ou seja, alunos brasileiros devem ir à escola no mínimo 200 dias por ano e o dia escolar deve durar pelo menos quatro horas.


Mas... qual seria a carga horária ideal? As estatísticas mostram que os países com melhor desempenho em educação não são necessariamente os que exigem mais horas compulsórias de estudo de seus estudantes.
Segundo a OCDE, na Finlândia o total de horas de instrução compulsória por ano é 30% menor do que na França, país cujos estudantes têm desempenho médio nos rankings internacionais.


No Brasil e no Quênia o dia escolar pode começar por volta das 7 da manhã; em muitas escolas australianas as aulas só começam por volta das 9.30.
E depois, ainda tem a lição de casa. Se fazer lição de casa é positivo para a criança ou se seria melhor que ela descansasse e brincasse após a aula são questões há muito tempo debatidas.


Em países do leste asiático, estudantes fazem pelo menos duas horas de dever de casa por dia


Um estudo recente da Brown University, em Rhode Island, Estados Unidos, concluiu que crianças pequenas fora do país têm muito mais lição de casa do que é recomendado por pedagogos americanos.
Pesquisas sugerem que 10 minutos de lição de casa deveriam ser adicionados para cada ano escolar. Ou seja, se uma criança no terceiro ano do fundamental faria meia hora de lição de casa por dia, um aluno na sexta série faria uma hora.
Só que muitos países do leste europeu ou no leste asiático provavelmente achariam essa recomendação bem estranha. Meia hora de lição de casa é um quarto do que as crianças de lá fazem diariamente.


Outros talvez ficassem aliviados. Estudos revelam também que tarefa escolar causa estresse em famílias quando os pais não se sentem capazes de ajudar suas crianças.


No Brasil, não há diretrizes quanto à quantidade de tarefa de casa - a decisão fica a cargo da escola e dos professores.
"O objetivo da lição de casa é ver se o aluno vai saber fazer sozinho, sem a ajuda do professor, o que ele aprendeu na sala de aula", disse Ana Inoue. "Então, a questão a colocar é, quanto espaço você está abrindo para o aluno aplicar o conhecimento em outras situações".
"Não importa se está fazendo em casa. O que importa é que ele tenha um momento para consolidar sozinho o que aprendeu."

ORIGEM DA FOTO E DO TEXTO: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150825_escola_moderna_debate_mv

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Há um novo quebra-cabeças de Matemática vindo da Ásia - PARTE 2 - RESULTADO

Texto publicado hoje, dia 21 de maio de 2015, originalmente  no jornal inglês THE GUARDIAN : http://www.theguardian.com/science/alexs-adventures-in-numberland/2015/may/21/how-to-solve-the-maths-puzzle-for-vietnamese-eight-year-olds-that-stumped-parents-and-teachers


O desafio era para preencher a cobra acima com os dígitos de 1 a 9, usando cada dígito apenas uma vez.  Os dois pontos ":" significa dividir, e você deve seguir a ordem normal das operações, o que significa que a multiplicação / divisão vem antes da adição / subtração.

 Em primeiro lugar, graças a todos vocês que tentou o problema e para aqueles que escreveram comentários perspicazes e divertidas sob a linha.  Se você ainda não leu a lista de discussão, vale a pena uma leitura.
 Agora ao que interessa.  Como eu disse quando eu definir a questão, não há matemática complicados envolvidos.  Nós domar a serpente Vietnamita por um processo de tentativa e erro, fazendo palpites medida que avançamos.
 Ou, podemos escrever um programa de computador simples para resolvê-lo para nós.  Que é o que muitos de vocês fizeram.  É sem dúvida um quebra-cabeça mais instrutivo para quem gosta cientistas da computação do que é para quem gosta aritméticos.
 Mas para aqueles de nós que são lápis e papel velho escola popular:
 Reescrever a cobra como uma equação:
 a + (13b / c) + d + 12e - f - 11 + (gh / i) - 10 = 66
 Estamos tentando encontrar a, b, c, d, e, f, g, h e i, que sabemos que são uma combinação dos dígitos 1,2,3,4,5,6,7,8 e 9.
 Antes mesmo de procurar uma solução, considere o número total de formas que poderíamos preencher a cobra: existem 362.880 possíveis combinações dos dígitos 1-9 colocados em nove slots.
 Podemos arrumar a equação para:

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 a + (13b / c) + d + 12e - f + (gh / i) = 66 + 11 + 10 = 87
 ou
 a + d - f + (13b / c) + 12e + (gh / i) = 87
 A partir daqui, podemos supor que b / c e gh / i será números inteiros, e também que nós não queremos 13b / c para ser muito grande.
 Sabendo disso, nós começamos ligar números e ver onde nós conseguimos.
 Há mais de uma solução, por isso há muitas suposições diferença que levarão ao número certo.  (I didnt escrever um programa, mas muitos de vocês fez e dos comentários, parece que há bem mais de 100 soluções).
 A resposta mais intuitiva, oferecida ontem eu pensei que pertencia ao contribuinte Brollachain.  Para manter o prazo 13b / c tão pequeno quanto possível, ele deixou b = 2 e c = 1.
 O que nos chega a
 a + d - F + 26 + + 12e (gh / i) = 87
 ou
 - a + d + f + 12e (gh / i) = 61
 Os restantes números são os dígitos de 3 a 9. Eles incluem os números primos 3, 5 e 7. Como Brollachain recomenda, permite que se livrar deles o mais cedo possível para que eles não complicar os outros termos.
 Deixe a = 3, d = 5 e f = 7.
 O que nos deixa com
 3 + 5-7 + + 12e (gh / i) = 61
 ou
 12e + (gh / i) = 60
 Os restantes números são 4,6,8,9.
 Brincando com estes nos leva
 e = 4
 g = 9
 h = 8
 i = 6
 48 + (72/6) = 48 = 12 60
 Há alguns quebra-cabeças que você resolve com um flash de insight, e alguns outros - como este - em que não há alternativa senão tentativa e erro.
 Ambos os tipos podem ser muito gratificante para resolver

Há um novo quebra-cabeças de Matemática vindo da Ásia

Questão foi colocada a alunos de oito anos, da terceira classe, numa escola primária no Vietname. Os alunos foram desafiados a preencher os espaços vazios com números de 1 a 9
 
 
Em Abril, meio mundo pôs-se a tentar descobrir a solução para um problema de Matemática colocado num dos exames das Olimpíadas da disciplina das Escolas Asiáticas e de Singapura. A resposta dada como correcta pela organização do evento tinha afinal mais de lógica do que números e o problema tornou-se um fenómeno na Internet, principalmente nas redes sociais. Agora, um jornal online vietnamita revelou um dos desafios lançados aos alunos de uma escola do país e que para muitos se está a revelar um novo e autêntico quebra-cabeças.


A problema foi publicado pelo VN Express no passado dia 18 e esta quarta-feira replicado pelo The Guardian. Foi colocado a alunos da terceira classe, com oito anos, de uma escola de Bao Loc, no centro do Vietname.
 
 
Aos alunos foi pedido que preenchessem os espaços em branco com algarismos de 1 a 9 para que, no final, o resultado fosse 66, utilizando as operações de somar, subtrair, dividir e multiplicar.
Segundo um professor de Matemática vietnamita, citado pelo VN Express e pelo Guardian, para a resolução do problema é apenas necessária aritmética. Tran Phuong admite, no entanto, que chegar à solução não é fácil. "Este problema é difícil, mesmo para adultos bons em Matemática, por isso será difícil para estudantes na terceira classe", considerou o professor.
Tran Phuong diz ter enviado o problema para algumas pessoas com elevados conhecimentos matemáticos, incluindo um "doutorado em Economia Matemática”, mas que, até agora, não obteve qualquer resposta.


Após a publicação pelo VN Express do problema, o jornal recebeu mais de 2800 comentários, a maioria com tentativas de resolução. O mesmo se passou com o Guardian, que desde a publicação da notícia na manhã desta quarta-feira recebeu 770 comentários, com possibilidade de respostas, algumas fundamentadas com detalhadas explicações de raciocínio.
A resposta certa ainda não foi anunciada.

ORIGEM DO TEXTO: JORNAL PUBLICO: http://www.publico.pt/mundo/noticia/ha-um-novo-quebracabecas-de-matematica-vindo-da-asia-1696286

terça-feira, 19 de maio de 2015

O que aconteceu com a educação no Brasil?



Por Laura Monte Serrat Barbosa
pedagoga, psicopedagoga
Quando me propuseram o tema para este trabalho, vieram-me à mente outras perguntas e, entre elas, a seguinte: “Cadê o índio que estava aqui?”
Esta pergunta me fez lembrar de uma brincadeira infantil que, apesar de um pouco linear, pode nos ajudar a compreender o que aconteceu com a Educação no Brasil.
A brincadeira a que me refiro começava com um toucinho e um gato e acabava da seguinte forma: “Cadê o padre?”, “Tá rezando missa”, “Cadê a missa?”, “Tá no altar”.
Nesta história real, o “padre” aparece um pouco antes.
Se iniciarmos nossa cantilena perguntando “Cadê o índio que estava aqui?”, a sequência pode ser:
– O padre o transformou.
– Cadê o padre?
– Ficou mais de duzentos anos rezando missa; catequizando índios e pagãos através da alfabetização; fazendo outros padres divulgando uma Educação acadêmica e abstrata.
– E depois dos duzentos anos, onde está o padre?
– Através da figura de um Marquês foi desbancado pelas ideias do iluminismo que assolavam o mundo, seus bens foram confiscados e suas escolas, fechadas.
capa índio
As ideias iluministas objetivavam transferir o poder, passando da Igreja para o Estado. Porém, o Marquês não visou uma reforma  brasileira, e sim uma reforma educacional para a Metrópole (Portugal). Como  não houvesse interesse em equipar a colônia com um sistema educacional eficiente, a suposta reforma foi um fracasso.
Desastre total: sem padres e sem escolas.
Mais cem anos. Com a chegada da chegada da corte Portuguesa ao nosso país, a escola e o sistema educacional entram em voga novamente, só que agora com a intenção de atender às necessidades da nobreza.
Reconstruiu-se a academização; fundaram-se escolas técnicas superiores (principalmente a academia militar); apareceu a primeira escola vocacional; surgiu a primeira imprensa; organizou-se a primeira biblioteca. Tudo isto com objetivo certo: a elitização do ensino. Todos os esforços para a reconstrução da escola gratuita foram em vão; não existiam verbas para isto, pois tudo o que se destinava à educação estava sendo aplicado à educação elitista e acadêmica dos nobres.
Em que época? Pasmem, na época da chamada “Independência do Brasil”, mas que, na realidade, caracterizou-se por ser a independência só de alguns.
A função da escola não era mais a de engrossar as fileiras de fiéis que seguiam os ensinamentos do “padre”, mas sim a de atender os interesses de uma elite que ficava cada vez mais poderosa.
Proclamada a “Independência”, e sem condições de uma estrutura independente, o império descentralizou a direção e a organização das escolas. Isto resultou em várias aberturas e inúmeros fechamentos de escolas. O abandono, novamente, foi geral.
– Cadê as escolas que estavam aqui – Só sobrou a de D. Pedro II: escola de ensino médio, modelar e elitária.
– Cadê as instalações que estavam aqui?
– Cadê as verbas? E os alunos? Cadê os professores?
O Estado não deu conta; nem tentando dividir as responsabilidades entre a federação e as províncias.
Somente 360 anos depois do descobrimento de nossa cultura indígena, precedido da invasão portuguesa, é que o sistema educacional brasileiro foi aquecido novamente.
– Sabem quem apareceu?
– O padre que, junto com várias ordens religiosas, criou muitas escolas
secundárias para rapazes, e protestantes que criaram escolas mistas.
O Estado não conseguiu se sobrepor à igreja, e o ensino acadêmico, elitizado e abstrato, voltou a reinar como instrumento de ação.
Com a República, veio junto uma enxurrada de reformas e, dentre elas, aquela desejada pelos positivistas da época: a introdução do estudo de ciências na escola primária e secundária, para contrapor-se ao ensino escolástico das escolas religiosas.
É nas décadas de 30 e 40 do século passado que surgiram as primeiras preocupações e chances educacionais reais para as camadas populacionais mais amplas; porém, o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, que mobilizou a Educação nacional na época, não contava com a participação direta desta camada da população na conquista dessas chances.
Este foi um período profícuo no sentido administrativo. Foi criado o Ministério da Educação; fundada a primeira universidade brasileira; a Constituição de 1937 previa a responsabilidade do Estado na Educação de crianças e adolescentes e a participação de indústrias e sindicatos na educação e formação profissional dos empregados.
Este início de discussão educacional continuou sendo ampliada nos 20 anos seguintes, quando a população passou a desenvolver consciência, participava das reivindicações, lutava pelos seus direitos. A alfabetização agora não tinha mais a intenção de doutrinação religiosa e passava a ser vista e realizada como instrumento de emancipação da maioria da população brasileira
A discussão educacional era intensa e finalmente, em 1961 culminou com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que, embora incompleta, representava o resultado de muita discussão e possibilitava ao povo opor-se e manifestar sua oposição. A preocupação da lei, entretanto, não era científica, e sim política; continuava desvinculada da realidade e do mundo do trabalho.
Nos discursos políticos, a Educação passava a ter importância; aparecia o incentivo à pesquisa mas, mesmo assim, o distanciamento da realidade ainda existia. Que marca intensa a história deixa! Como é difícil livrar-se do academicismo, do idealizado, do abstrato e descontextualizado!
Os estudantes se mobilizavam; os artistas produziam belas obras que retratavam a presença da oposição, da democratização.
Mas a alegria durou pouco. Embora Paulo Freire estivesse conseguindo um trabalho emancipador, a Revolução de 64 calou os artistas, os educadores, os jovens; o militarismo passou a reinar e mudou o rumo da Educação no pais.
Nesse momento não se tratava de portugueses invadindo a terra indígena, nem de uma metrópole controlando uma colônia. Era uma importação americana de modelos educacionais que objetivavam não mais formarem brasileiros, e sim Americanos do Norte. Os ginásios polivalentes, a estrutura universitária norte-americana sendo implantada aqui, a Lei 5.692 que visava modificações no ensino médio e primário, metodologias e tecnologias “tecnicistas”. Tudo isto resultou numa pergunta:
– Cadê o Brasil que estava aqui?
– Está se transformando em território do norte, embora encontre-se no sul.
– Cadê os brasileiros que estavam aqui?
– Todos em terras distantes, porque aqui não mais podiam falar, escrever, ensinar, compor, pintar etc.
O militarismo interrompeu o processo social que se encorpava e, durante 20 anos, permanecemos no silêncio obrigatório, e no não crescimento educacional. Passamos 20 anos copiando, reproduzindo a nova metrópole, transformando-nos no mais empobrecido “império” que era possível.
Aprendemos a ser robôs, a plastificar tudo que encontrávamos, a promover um ensino em série, a fazer um controle de qualidade de alunos, a excluirmos aqueles que não se transformavam segundo o esperado pelo modelo etc.
Para contrapor este “engessamento”, surgiam estudos progressistas, que foram retomados após esse período. Continuamos do ponto em que havíamos parado. Administramos os prejuízos e começamos a luta- por uma escola brasileira: mais justa, gratuita, destinada à população como um todo e que tivesse como objetivo principal ensinar o conteúdo historicamente construído. Uma escola que fizesse oposição aos currículos propostos na época da república e àqueles propostos pelas escolas religiosas. Uma escola que acreditasse na construção colmava do conhecimento, na pesquisa, num conhecimento dinâmico que se atualizasse e se transformasse o tempo todo e, sobretudo, uma escola que formasse seres críticos e não reprodutores.
Chegamos aos anos 90 com uma multiplicidade de sistemas educacionais. Tínhamos presentes em nosso cotidiano a escola doutrinária, a escola nova, a tecnicista e a progressista.
Novamente um grande movimento educacional passava a ser realizado. Modificava-se a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; criavam-se parâmetros curriculares nacionais, a partir de uma discussão mais ampla e de contribuições de outros países; criava-se um modelo de avaliação das escolas; ousava-se mexer no sistema de avaliação, no modelo do vestibular.
Hoje, exagera-se por uma educação cidadã, desgastando um termo que permite à escola conceber uma nova forma de ação que não é só acadêmica, mas também vivencial.
Nesta forma de ensino, é permitido ver que índio que estava aqui foi arrancado daqui e está mais ali, desadaptado e, em muitos casos, infeliz.
Então, o que aconteceu com a Educação no Brasil?
Na realidade, a Educação no Brasil teve muitos donos e intenções muito
diferentes.
No início, o desejo de doutrinação religiosa, o conhecimento posto a favor da Igreja; a seguir, o Estado pretendendo fazer educação sem conseguir, e o conhecimento valorizando um só aspecto: a necessidade da nobreza. Mais tarde, o Estado fez uma primeira tentativa de democratização do ensino: um movimento para colocar o conhecimento ao alcance de todos; entretanto, isto se fez de forma autoritária; depois seguiu com a presença da ciência nos currículos com a intenção de desbancar o conhecimento escolástico e de introduzir uma visão materialista de mundo; impôs a presença da reprodução e do tecnicismo nos sistemas educacionais e o distanciamento da possibilidade de crítica; propôs, nesse momento, o retorno do materialismo, mas de forma diferente: em bases que propagavam um conhecimento historicamente construído.
Permanece o desejo de fazer interdisciplinaridade, de ver o homem como um todo, como ser humano e como parte do universo, cuidando para não perder as especificidades culturais e respeitando o direito de todos à Educação.
Muitas faces, muitos chavões desenvolvidos em cada época; entretanto, com muita dificuldade em termos uma Educação que atenda a todos e que trate o conhecimento como um instrumento de viver, ligado à realidade e relacionado ao trabalho dos homens e das mulheres deste planeta.

 
Esse texto faz parte da coletânea de reflexões “Psicopedagogia e Aprendizagem”, de Laura Monte Serrat Barbosa. Contato lauramonteserrat@bol.com.br
ORIGEM DO TEXTO: http://www.contioutra.com/o-que-aconteceu-com-a-educacao-no-brasil/