quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os segredos dos melhores professores de matemática do mundo


Considera-se que estudantes de Xangai estão três anos à frente dos outros
por Valeria Perasso
   
Os professores de matemática de Xangai, na China, estão entre os melhores do mundo graças ao do alto desempenho de seus alunos em exames internacionais.

A reputação deve-se ao método empregado pelos docentes, que se tornou um dos principais produtos de exportação da cidade mais populosa da China - metade das escolas no Reino Unido, por exemplo, devem adotar o "sistema de ensino de Xangai".

Estatísticas comprovam que alunos do ensino fundamental que aprendem matemática usando a técnica têm rendimento superior aos demais.

  

Os estudantes de Xangai, por exemplo, estão três anos à frente dos de outros países em termos de escolaridade.

Mas qual é o segredo do sucesso da cidade? A BBC compilou os princípios do método - bem como suas críticas.
Conceito é tudo

O método de Xangai estrutura cada aula em torno de um único conceito matemático - como aprender adições básicas, resolver uma equação ou entender as frações como parte de um todo.

E tudo é coberto muito metodicamente, de modo que a aula não avança até que cada estudante tenha entendido.

"Em muitas partes do mundo, acredita-se que uma boa aula é aquela que cobre grande parte da ementa do dia, ou seja, quanto mais se avança, melhor", diz Mark Boylan, especialista em educação da Universidade Sheffield Hallam, do Reino Unido, e colaboradora da publicação Schools Week.

"Em Xangai, o objetivo é assegurar que um conceito seja totalmente aprendido e não seja ensinado de novo no futuro."


Especialistas em matemática consideram o sistema muito rigoroso ou exigente, baseado em manuais feitos sob medida que substituem folhetos ou planilhas.

Trata-se de uma metodologia altamente conceitual, na medida em que professores baseiam suas aulas em métodos fundamentais e leis da matemática, embora os alunos sejam encorajados a representar fisicamente os conceitos usando objetos e imagens para ajudá-los a visualizar ideias abstratas.


Além disso, a forma como os alunos falam e escrevem sobre matemática, acreditam os especialistas, pode contribuir para seu sucesso.

"Sempre lhes pedimos para explicar a resposta em frases completas. Ou seja, não adianta escrever apenas a resposta certa, mas entender o conceito. Essa é a chave para construir o raciocínio lógico e a linguagem matemática", informa o programa de desenvolvimento profissional Mathematics Mastery, baseado no método asiático.

Por outro lado, críticos dizem que o sistema é muito abstrato e não aplica a matemática em cenários da vida real.

Alguns também argumentam que o método ensina os alunos a se preparar para provas, ou seja, a ter um bom desempenho nos exames internacionais, mas sem adaptar o conhecimento a situações do dia a dia.
Unidos venceremos

Há também um princípio de coesão por trás do método de Xangai: a classe aprende como se fosse um só aluno, todos avançando no mesmo ritmo - não prosseguindo se alguém ainda estiver com dúvidas.

Os professores, por exemplo, não dividem o grupo com base na capacidade individual, nem em tarefas com dificuldade variada. Todo mundo é considerado um matemático nato e cabe aos professores tirar o melhor dos alunos.

Os estudantes com melhor desempenho são encorajados a aprofundar o conhecimento e ajudar o restante da classe, em vez de se distanciarem dos colegas menos aptos.

Enquanto essa busca pela igualdade dentro de sala é comemorada por muitos, críticos acreditam que o sistema desestimula os estudantes mais avançados, que acabariam ficando entediados.

A disposição das carteiras, porém, segue o modelo tradicional - o que, segundo críticos, não estimula a colaboração entre os pares.

"Trata-se de uma disposição rígida e pouco inspiradora", dizem.

Repetição, repetição, repetição

A repetição de conceitos também é um ingrediente fundamental da receita secreta de Xangai.

Crianças a partir de cinco anos são submetidas a testes para praticar exercícios até dominar cada conceito por meio da repetição.

Um aluno responde à pergunta de um professor e os outros repetem a resposta em uníssono. Em seguida, outra responde a uma outra pergunta e o restante repete. A sequência continua à exaustão.

Nessa rotina militar, espera-se que os estudantes aperfeiçoem o uso do vocabulário matemático - não apenas exercícios de matemática - na medida que a aula avança.

Mas as aulas são também muito interativas, destacam os especialistas.

Além disso, são curtas e harmoniosas: consistem de 35 minutos de ensino focado, seguido de 15 minutos de brincadeiras não estruturadas.

A estrela: o professor

Mas é no número de horas em sala de aula que se encontra o que é talvez o fator mais negligenciado da história de sucesso de Xangai.

Uma avaliação do modelo de ensino, publicado na semana passada pela Universidade Sheffield Hallam, mostrou que os professores só têm duas aulas diárias de 40 minutos.

O resto do dia é dedicado ao desenvolvimento profissional, incluindo feedback entre os colegas e observação das aulas.

Mas o mais importante é que um professor de matemática em Xangai passa até cinco anos na universidade estudando especificamente como ensinar matemática a alunos do ensino fundamental.

"Parte do sucesso do ensino de matemática em países como China e Cingapura vem do respeito aos professores e do tempo que eles têm para se planejar e preparar", diz o especialista em educação britânico James Bowen.


No entanto, críticos argumentam que há um descompasso entre o bem-estar dos professores e o dos estudantes.

Um estudo de 2014 sobre o bem-estar da criança, realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento Social na NYU Xangai, revelou que enquanto a maioria das escolas está equipada com salas de aula adequadas, bibliotecas e laboratórios de informática, não têm facilidades como auditórios, ginásios ou salas de reuniões.

E cerca de 13% das crianças apresentam saúde regular ou ruim.ORIGEMhttp://www.bbc.com/portuguese/geral-36828458

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Por que um problema simples é um dos buracos negros da matemática


"Mapa fractal de Collatz na vizinhança de uma reta real" - belo mas indecifrável, sobretudo para quem não conhece a matemática


Simples não significa fácil.

E este problema, um dos buracos negros da matemática, é prova disso.

Ele começa dando muitas possibilidades de como chamá-lo: talvez a denominação mais comum seja conjectura de Collatz, em referência ao matemático alemão Lothar Collatz, o primeiro a propô-lo, em 1937.


Mas é possível encontrá-lo como conjectura de Ulam (pelo matemático polonês-americano Stanisław Marcin Ulam), problema de Kakutani (pelo matemático nipo-americano Shizuo Kakutani), conjectura de Thwaites (pelo acadêmico britânico Bryan Thwaites), algoritmo de Hasse (pelo matemático alemão Helmut Hasse) ou problema de Siracusa.

E não é tudo: a sequência em questão também pode ser chamada de números de granizo ou números maravilhosos.

O nome mais descritivo talvez seja conjectura de 3n + 1.
Simplicidade complexa

Mas não é isso que desafia os matemáticos: seja qual for o nome, continua sendo o problema impossível mais simples de todos.

Qualquer pessoa que saiba somar, dividir e multiplicar pode entender do que se trata, seguir a sequência de números e até tentar resolvê-lo.

Desde os anos 1930, contudo, ninguém conseguiu explicá-lo, prová-lo ou refutá-lo.

    O polêmico muro que o fundador do Facebook está construindo no Havaí

Em algum momento especulou-se que a conjectura pudesse ser uma estratégia soviética para distrair os cientistas.

Deste modo, antes de apresentar o problema, vale lembrar uma advertência de um dos matemáticos mais produtivos - e excêntricos - do século 20:

A matemática não está pronta para este tipo de problema (...) Absolutamente impossível."
Matemático húngaro Paul Erdős, sobre a conjectura de Collatz
THINKSTOCK
Eis o problema:

Comece com um número natural inteiro qualquer (1, 2, 3, 4, 5...).

    Se o número é par, divida-o por 2
    Se é ímpar, multiplique-o por 3 e some 1

Depois aplique essas mesmas regras simples ao resultado.

Comecemos com 10, que é par.

10 ÷ 2 = 5, que é ímpar, então aplicamos a segunda regra.

5 x 3 = 15 + 1 = 16.

Como é par... 16 ÷ 2 = 8

8 ÷ 2 = 4

4 ÷ 2 = 2

2 ÷ 2 = 1

Até aqui, simples.

O que torna o problema intrigante é que não importa com qual número comece, eventualmente sempre chegará a 4, que se converte em 2 e termina em 1.

Pelo menos é esse o caso com todos os números que foram testados, e já se tentou usar alguns quase absurdos.

Jason Davies, programador que faz excelentes visualizações de dados, criou um gráfico sobre a conjectura de Collatz: todos os números levam ao 1.

Supercomputadores fizeram o problema com números que vão até aproximadamente 5.764.607.500.000.000.000.

Todos eventualmente chegam a 2 ÷ 2 = 1.

Contudo, como os números são infinitos, isso não prova que esse seja o caso para todos os números naturais.

Mas como não se encontrou uma exceção, tampouco há provas de que não seja assim.

Outra questão é resolver o eterno por quê. Por que os números se comportam assim?

Devo avisá-los que não tentem resolvê-lo na mente ou calculá-lo na parte de trás de um velho envelope."
Harold Scott Coxeter, geometrógrafo britânico, sobre a conjectura de Collatz
THINKSTOCK
Granizo

O problema chega sempre ao mesmo ponto, não importa como.

A confusão é que na hora de resolvê-lo desenhando um algoritmo (sequência finita de regras, raciocínios ou operações que permite solucionar classes semelhantes de problemas), há pedras de gelo no caminho.

Como o granizo nas nuvens antes de cair, os números saltam de um lugar ao outro antes de chegar ao 4, 2, 1.

Uns mais e outros menos, sem sentido aparente.

 Iterações necessárias para chegar a 4, 2, 1 para os números de 2 a 10.000.000


A maior quantidade de escalas que faz um número inicial menor de 100 milhões para chegar a 4, 2, 1 é 986.

Mas enquanto a "viagem" é mais curta para os múltiplos de 2, outros levam mais tempo.

Um exemplo citado com frequência é a comparação entre os números 8.192 e 27.

O 8.192 leva 13 passos para chegar ao final aparentemente inescapável: 4, 2, 1.

O número 27 não apenas leva 111 passos para chegar, mas no caminho sobe até 9.232 antes de poder alcançar o 4, 2, 1.

A ausência de padrões dificulta ainda mais resolver uma conjectura já classificada como impossível.

 Se o problema é quase impossível, vale a pena continuar tentando desvendá-lo?
Curioso e relevante?

Se o problema é tão difícil, e talvez impossível, vale a pena continuar tentando resolvê-lo?

"Quando passar dias ou semanas tentando, em vão, resolver um problema, pense no pobre Sísifo e em sua pedra", aconselhou o geometrógrafo Coxeter.

"Como (o matemático alemão) Felix Behrend diz ao final de seu livro, 'Sísifo e sua pedra são símbolos do homem e de sua eterna luta, incessante, inalcançável e, contudo, sempre triunfal. O que mais se pode pedir?'"

Poético, mas se isso não o convence sobre a importância de esclarecer esse mistério, recorramos aos especialistas do Mathematics Stack Exchange, site de perguntas e respostas para pessoas que estudam matemática em qualquer nível e profissionais de áreas relacionadas.

"Os matemáticos suspeitam que solucionar a conjectura de Collatz abrirá novos horizontes e desenvolverá novas e importantes técnicas na teoria dos números", disse Greg Muller.

"O problema de Collatz é suficientemente simples para que qualquer pessoa o entenda, e não se relaciona apenas com a teoria dos números, mas com problemas de decidibilidade, o caos e com fundamentos da matemática de computação. Melhor impossível", escreveu o usuário Matt.

"Outra razão é que, por ser fácil de apresentar e entender, tem potencial de atrair jovens para a matemática. Eu mesmo soube de sua existência no ensino médio e não resisti a seu encanto", comentou Derek Jennings.   ORIGEM DO TEXTO  http://www.bbc.com/portuguese/geral-36702054

domingo, 3 de julho de 2016

O que é importante na escolinha do seu filho - e o que pode ser prejudicial?

Pré-escola municipal em São Paulo; especialistas defendem que crianças experimentem diferentes tipos de atividades lúdicas e estímulos

por   Paula Adamo Idoeta Da BBC Brasil em São Paulo



A creche e a escolinha são muito mais do que apenas os locais onde as crianças passam seu tempo enquanto os pais estão trabalhando.

O período da educação infantil tem forte impacto no desenvolvimento da criança de zero a seis anos e é capaz, inclusive, de ampliar ou reduzir as desigualdades educacionais e sociais do país: quem frequenta creches de baixa qualidade, públicas ou privadas, acaba partindo de um patamar inferior a quem recebeu estímulos enriquecedores, experiências produtivas e afeto nesse período, dizem especialistas.

"Pesquisas de neurociência comprovam que é nos três primeiros anos de vida que o ser humano alcança o ápice do aprendizado de capacidades como linguagem, memória e atenção, importantes para a vida toda", diz à BBC Brasil Beatriz Ferraz, gerente de educação infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

"Ela faz conexões cerebrais em alta velocidade. A falta de estímulos nessa fase é um grande desperdício. É muito mais custoso (aprender) mais para frente."

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O pesquisador da Faculdade de Economia e Administração da USP de Ribeirão Preto Daniel Santos compilou diversos dados e estudos sobre educação infantil e concluiu que a má qualidade de grande parte da rede brasileira pode prejudicar essas crianças mais adiante, tanto em seu desempenho escolar quanto no desenvolvimento emocional.

Os impactos podem se estender à renda futura dessas crianças e até seu envolvimento com a criminalidade, agrega Alejandra Meraz Velasco, do movimento Todos Pela Educação.

Então, o que é importante observar na escolinha do seu filho, seja pública ou particular? A BBC Brasil listou alguns pontos levantados por especialistas, em nove tópicos:
1. Estímulos e brincadeiras são cruciais para aprender - e ficar à toa é a pior opção

A escolinha é o local para as crianças explorarem e serem estimuladas por diferentes materiais, sons, histórias e fantasias, explica à BBC Brasil Shirley Maria de Oliveira, coordenadora pedagógica do Centro de Educação Infantil Suzana Campos Tauil, pré-escola de referência na rede municipal de São Paulo.


E o aprendizado se dá sobretudo pela brincadeira. Atividades individuais e coletivas enriquecerão seu repertório de sentidos e experiências.

"São as brincadeiras, ações, interações (...) que levam a criança a ter curiosidade sobre temas, práticas e ideias", diz trecho da Base Nacional Comum Curricular, documento do Ministério da Educação que, quando concluído, orientará o currículo escolar do país.

Isso envolve, por exemplo, coletar folhas e galhos no jardim, brincar de roda e de jogos, transformar objetos comuns em brinquedos, ouvir histórias, desenhar e pintar.

O pior para a criança nessa fase é passar o dia à toa: "A escolinha tem de ter um conjunto de atividades que sejam intencionalmente provocadoras de estímulo. Creches onde a criança passa o dia dormindo e assistindo TV são um crime, por mais carinhosas que sejam as educadoras", adverte Daniel Santos, da USP-Ribeirão Preto.

E isso, no entanto, ainda ocorre no Brasil, como herança da época em que creches eram vistas não como período de educação, mas de mera assistência social, "quando era suficiente que a criança estivesse alimentada, limpa e sem doenças", agrega Santos.

"Para muitos pobres (sem acesso à pré-escolas de qualidade), a creche piora o desenvolvimento da criança. É um problema bastante agudo num momento em que fala-se tanto em expandir esse serviço no Brasil."
2. A criança gosta de ir à escola?

Para Santos, "a primeira coisa a observar, independentemente do método (da escola), é se a criança está gostando de ir, se não está se estressando exageradamente - isso é um grande risco à educação infantil".

Por trás disso estão, além das atividades enriquecedoras, professores afetuosos.

"O professor tem que ser uma presença brincante, lúdica, alegre e amorosa", diz Shirley, do CEI Suzana Campos.

Portanto, é bom também que não haja muita rotatividade de educadores, porque eles acabam se tornando referência afetiva para as crianças pequenas.


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3. Espaço, brinquedos e livros

Os especialistas consultados pela reportagem dizem que o ambiente da pré-escola tem de ser aconchegante e acessível às crianças. Mas mais importante do que as instalações em si são os estímulos que elas proporcionam.

Um jardim oferece às crianças a chance de contato com a natureza, mas a ausência desse espaço pode ser compensada de outras formas.

"Você pode construir cenários (dentro da própria escola), trazer histórias e elementos diferentes às crianças, visitar praças ou parques, usar fantoches e tendas", sugere Marcia de Castro Ferreira dos Santos, diretora do CEI Suzana Campos.

Não é preciso ter um monte de brinquedos tradicionais, como bonecas e jogos, já que eles podem ser combinados com os chamados materiais não estruturados: caixas e tecidos, por exemplo.

"Esses materiais dão às crianças um espaço de criação muito maior. O pano pode virar capa de super-herói, avental de cozinha, cobertor, cabelo da princesa", conta Shirley.

Livros infantis são cruciais, mas eles sozinhos não promovem a experiência com a literatura. "É o adulto quem faz isso", diz Marcia. "Crianças que entram na escola sem estarem habituadas a ler ignoram os livros e só vão se interessando quando fazemos rodas de história e projetos de leitura."
4. Ter um projeto pedagógico

Todos os especialistas consultados pela reportagem concordam que é essencial que escolinhas e creches tenham um projeto pedagógico, ou seja, que haja um motivo por trás das atividades oferecidas às crianças.

As responsáveis pelo CEI Suzana Campos explicam que seus professores planejam quais experiências pretendem proporcionar às crianças a cada semana - linguagens, sons, arte e literatura - e registram diariamente como cada aluno reagiu.

Mas Alejandra, do Todos Pela Educação, faz uma ressalva: "O brincar é o elemento importante e não deve ser abandonado nessa fase. O objetivo não é adiantar o ensino fundamental".


 
5. Preservar a autonomia e a individualidade

É preciso que todas as crianças da mesma turma façam a mesma atividade ao mesmo tempo? Nem sempre, dizem os especialistas.

Projetos e brincadeiras em grupo são importantes, mas também o são os momentos em que as crianças podem escolher entre uma aquarela para pintar ou um livro para ler. O objetivo é dar-lhe liberdade e autonomia.

Outra forma de estimular isso é durante as refeições, por exemplo permitindo que crianças de 2 ou 3 anos comecem a tentar se servir. "Há pais que se surpreendem em ver que seus filhos conseguem fazer algumas coisas sozinhos", explica Marcia, do CEI Suzana Campos.

Daniel Santos orienta também que se fique atento "à criança que está fora do grupo e buscar entender o porquê (de ela não participar das atividades)".

Além disso, é preciso enxergar as crianças como seres singulares, que vão vivenciar as experiências cada uma a seu modo.

Marcia sugere, por exemplo, que bebês fiquem nos berçários com algum pedaço de pano que tragam de casa, cujo cheiro remeta à família. "Eles estão aprendendo outros vínculos além da mãe", explica.

A disponibilidade para atender os pais e incluí-los no projeto pedagógico é outro ponto crucial, diz Shirley.

"Fazemos encontros temáticos com os pais, sobre brincadeiras, o Estatuto da Criança, a importância da leitura - até para eles entenderem que quando o seu filho voltar para casa de bermuda suja de terra ou tinta será um sinal de que ele brincou, explorou, desenvolveu capacidade de equilíbrio, confiança e força."

6. Qualificação e quantidade de educadores

Os educadores precisam por lei ser formados em pedagogia, mas recomenda-se que tenham também uma formação específica para lidar com essa faixa etária (de zero a seis anos) e vivências práticas.

"É o professor quem vai trazer elementos ao imaginário da criança, com estratégias como jogos, músicas, histórias", explica Marcia.

"Os dados parecem mostrar que a formação prática tem mais efeito do que o diploma (na capacidade do educador nessa fase)", diz Santos.

Quanto à proporção, os parâmetros de qualidade do Ministério da Educação recomendam que, na faixa etária de zero a 2 anos, haja 6 a 8 crianças para cada educador; aos 3 anos, 15 crianças para cada educador; a partir de 4 anos, 20 crianças para cada educador.

E turmas menores são melhores para crianças pequenas, diz Beatriz Ferraz. "Turmas grandes causam estresse tóxico", por tornar o ambiente provavelmente caótico.

7. Precisa de tecnologia?

Tablets e TVs devem ter espaço na escolinha?

No CEI Suzana Campos, a percepção é de que é muito cedo para isso.

"(O uso) nega à criança a possibilidade de viver o tempo da infância. (O tablet) chegará pelo contexto social mais tarde", opina Marcia. "Preferimos usar mídias de forma diferente: lupa, lanterna, projetor para fazer mímicas e sombras, máquinas fotográficas. Não dá para ficar só no mundo virtual (da tecnologia), porque a criança precisa do mundo real."

Para Daniel Santos, "há pouca evidência conclusiva, mas quando se diz que 'a TV faz mal' é porque traz apenas um estímulo à criança, em vez de vários. E é a variedade de estímulos que importa. Se a tecnologia for bem usada, ok. Se for usada para fazer a criança parar de chorar, não é um bom começo."

Segundo Beatriz Ferraz, experimentos mostram que crianças pequenas aprendem muito pouco com a exposição à TV. "A interação que faz sentido para ela é a humana, em que ela fala, um adulto responde e isso gera mais uma reação. (Mas) podemos pensar na tecnologia como um instrumento (de auxílio) à aprendizagem, com um peso e uma medida muito menor (do que a interação humana)."
Image copyright Thinkstock
Image caption É pelas brincadeiras que as crianças fazem seu aprendizado nessa etapa
8. E a alfabetização?

Uma corrente de especialistas defende que noções de alfabetização sejam introduzidas já na educação infantil - algo que não está previsto na versão atual da Base Nacional Curricular, ainda em debate.

Outros defendem que é muito cedo - e lembram que os pais não devem ter expectativa de que o filho saia alfabetizado da escolinha.

No CEI Suzana Campos, "as crianças são expostas a letras, poemas, livros. Mas nunca numa perspectiva preparatória, e sim dando potência para criatividade e a imaginação", diz Shirley. Ela opina que apressar a alfabetização seria "pular uma etapa".

Para Santos, "uma criança curiosa que queira, do seu jeito, brincar com números e letras deve ser incentivada. O que faz mal não é introduzir a alfabetização, mas fazê-lo de modo forçado nessa fase".

9. Convivência

A escolinha também é um local de convivência e inclusão: "o foco (da educação infantil) deve ser uma visão plural de mundo, que respeite as diferenças entre pessoas, contextos e culturas", diz a Base Curricular.

Para Shirley, a escolinha pode inclusive contribuir no combate ao preconceito e à desigualdade de gênero.

"Aqui na escola, meninos e meninas usam todos os brinquedos - bonecas, vestidos, panos. E nessa relação de gênero já vemos eles assumindo papéis que historicamente não assumiam. 'Cuida do nosso filho que eu vou trabalhar', disse uma menina de três anos (enquanto brincava de boneca com o colega)."

A convivência pode se enriquecer também com crianças deficientes físicas ou autistas, por exemplo.

"O que está em evidência (na educação infantil) é sua condição de criança e o que ela tem como potência, e não sua deficiência", prossegue Shirley. "Ela vive as mesmas experiências que as demais, tem interesses e necessidades. E assim ela vai superando sua condição de deficiente, porque vive num espaço onde há igualdade."   origehttp://www.bbc.com/portuguese/geral-36385643

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Como são avaliados os professores nos países com a melhor educação do mundo

No último domingo, seis pessoas morreram durante confrontos entre professores e a polícia no Estado mexicano de Oaxaca. Pelo menos 100 pessoas ficaram feridas, incluindo muitos policiais.

Leire Ventas Da BBC Mundo




Este protesto, organizado pela combativa facção de Oaxaca da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Ensino (CNTE), o principal sindicato da categoria do México, foi apenas o capítulo mais recente na resistência de um amplo setor da categoria em aceitar reformas educacionais introduzidas pelo governo em 2013.

Entre as medidas, a mais polêmica é a introdução de um sistema de avaliação do desempenho dos professores.

Os professores do México não são os únicos a resistir a esse tipo de iniciativa. No Chile também houve protestos quando , em 2006, foi introduzida uma medida parecida.


Entretanto, "a maioria dos países com bons resultados educativos avalia seus professores", diz Cristián Cox Donoso, especialista em estratégia docente do Escritório Regional de Educação da Unesco para a América Latina e o Caribe.

É o caso de Xangai, Cingapura, Hong Kong e Japão, que aparecem nas primeiras posições do Programa Internacional para Avaliação de Estudantes (Pisa), utilizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para comparar o desempenho e matemática, ciência e leitura de meio milhão de adolescentes de 15 anos em 65 países, incluindo o Brasil.
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Image caption A China tem um sistema complexo de avaliação de professores

Em Xangai, por exemplo, assim como no resto da China, existe um complexo sistema destinado a medir a qualidade dos professores. Os critérios gerais se estabelecem a nível nacional, detalham-se ao nível local, e cada escola é encarregada de levar a cabo as avaliações.

E as avaliações têm ainda critérios como integridade profissional e valores do professor, não apenas habilidades.

O processo tem autoavaliações, questionários dirigidos a colegas, alunos e pais, mas também leva em conta os resultados acadêmicos de seus alunos.

Os dados são enviados ao governo central.

"A China quer redefinir o sistema para fazê-lo mais científico", diz Vivian Stewart, autora do livro A World-Class Education: Learning from International Models of Excellence and Innovation, que analisa iniciativas internacionais bem-sucedidas no campo da educação.

Stewart também elogia o sistema de avaliação de professores em Cingapura. No país asiático, a avaliação anual é obrigatória desde 2005 para todos os professores. Ela leva em conta não apenas os resultados acadêmicos, mas também as iniciativas pedagógicas do professor, as contribuições para seus colegas e sua relação com os pais de alunos e organizações comunitárias.

E, durante três momentos do ano, o plano de aulas de cada professor é vistoriado pelo diretor ou sub-diretor da escola.

No Japão, cada professor estabelece objetivos junto à direção da escola no início do ano, e no final do ano tem seu desempenho avaliado.


Durante o ano, aulas são supervisionadas por grupos de professores - e em alguns casos por inspetores e mesmo autoridades via vídeo. Em Hong Kong, as escolas realizam avaliações anuais, que o governo revê a cada três anos.
Informalidade

Mas nem todos os sistemas são tão formais. Na Finlândia, país que segue sendo um importante referencial educacional a nível internacional, embora tenha perdido posições nas últimas edições do PISA, a maneira de medir o desempenho dos professores é diferente.

No início da década de 90, o paíes europeu aboliu o sistema de inspeção escolar e hoje as avaliações têm lugar na própria escola, com base em conversas entre o professor e o diretor.
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Image caption A Finlândia tem sistema de avaliação mais informal e baseado na confiança

"É um modelo baseado na confiança", diz Paulo Santiago, analista de educação da OCDE.

Mas Santiago afirma não haver um sistema que sirva para todos.

"Ele precisa ser adaptado ao contexto".
Panorama latinoamericano

Especialistas recomendam ainda que um modelo de avaliação precisa cumprir com as seguintes características: os padrões de medição devem estar bem estabelecidos, os professores devem conhecê-los e quem avalia os professores deve ter boa formação.


Na América Latina, o país que há mais tempo avalia seus professores é o Chile.

O governo criou um sistema nacional em 2006, depois de uma longa negociação com os sindicatos. "E a partir de agora, com a promulgação da Lei da Carreira Docente, os professores da rede particular também serão avaliados", explica a BBC Mundo Cristián Cox Donoso, o especialista em estratégia docente da Unesco.

O processo inclui uma revisão do portfólio do professor, gravação de uma aula, entrevistas com examinadores e uma autoavaliação.

Os dados são alimentados a um computador, que calcula uma nota para o desempenho docente. E os resultados podem determinar se um professor vai receber aumento ou mesmo enviado para plano de reaprendizado para trabalhar em suas deficiências.


Se não há melhora nas avaliações seguintes, o professor poder ser forçado a deixar de exercer a profissão.

Cox informa que, além de Chile e México, Colômbia e Peru também estão estudando ou introduzindo projetos do tipo.

ORIGEM DO TEXTO http://www.bbc.com/portuguese/geral-36595678

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Carência de matemática impede exercício da cidadania no Brasil, diz pesquisador premiado

"O Brasil precisa de matemática", afirma o pesquisador premiado

Daniela Fernandes De Paris para a BBC Brasil

 

A carência de conhecimentos em matemática no Brasil chega a um nível que "interfere no exercício da cidadania", afirma o diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) do Rio, Marcelo Viana, que recebeu em Paris na quarta-feira o maior prêmio científico concedido na França.

"O Brasil precisa de matemática", diz o carioca, que citou à imprensa o caso real de uma vendedora de castanhas de caju que oferecia um pacote por R$ 3 e dois por R$ 5, mas se recusava a vender três por R$ 10 por considerar um mau negócio.

"Não estamos falando de profissão tecnológica, e sim de vender castanha de caju. A matemática também entra nesse nível. O país tem que encarar isso como uma prioridade", afirmou após a entrega do prêmio.


Viana recebeu o Grande Prêmio Científico Louis D. por sua obra sobre sistemas dinâmicos - ramo da matemática que estuda fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo -, utilizados em ecossistemas, previsão do tempo, trânsito e movimentos planetários, por exemplo.

A honraria, dada pela primeira vez na área da matemática, é concedida pelo prestigioso Institut de France, que reúne as cinco academias do país, entre elas a de Letras (fundada em 1635), a de Ciências e a de Belas-Artes.

O brasileiro dividirá o prêmio de 450 mil euros (cerca de R$ 1,8 milhão) com o matemático francês François Labourie, da Universidade de Nice, por outro trabalho também na área de sistemas dinâmicos.

Segundo as regras da premiação, 90% do montante distribuído deve ser destinado a pesquisas.

Para Viana, a matemática no Brasil é "subvalorizada", e o ensino da disciplina é "catastrófico" por causa da má formação dos professores e da falta de incentivos na carreira.

"Primeiro o professor precisa saber matemática. Pode parecer óbvio, mas não é", diz ele, acrescentando que apenas 5% dos formandos nessa área estudaram em universidades públicas e que muitos deles preferem não integrar o sistema de ensino.

A grande maioria, afirma, cursa faculdades privadas, "cujo controle de qualidade é no mínimo duvidoso".

"E mesmo quem, apesar de tudo, decidiu ser professor não terá um salário compensador nem uma carreira motivadora."

Além disso, esses profissionais acabam trabalhando até 70 horas por semana para complementar a renda, diz Viana.

Para ele, o Brasil deveria dar prioridade à situação "muito grave" do ensino da disciplina.

"Temos dados (mostrando) que, ao final do ensino médio, nem sequer 10% dos alunos que são aprovados aprenderam o mínimo desejável."

No último estudo internacional PISA, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado com alunos de 15 e 16 anos, os alunos brasileiros ficaram no 58° lugar em matemática em um ranking composto por 65 países, atrás de lugares como Albânia e Costa Rica.

De acordo com o mesmo estudo, 67,1% dos estudantes brasileiros na faixa etária analisada têm baixa performance na disciplina e poderão, mais tarde, ter dificuldades no mercado de trabalho, o que limita a possibilidade de ascensão social.
'Bicho-papão'

Para o diretor-geral do Impa, a matemática precisa ser valorizada e se tornar "mais atraente, criativa e próxima das pessoas". Para isso, o papel das famílias é fundamental, diz ele.

"A matemática é um barato. É preciso mostrar isso para a criança desde cedo. Nosso diagnóstico é que o bicho-papão da matemática não existe nos primeiros anos", afirma.

"As crianças gostam de matemática, mas como ela é ensinada nas escolas e a falta de relevância dada pelas famílias faz com que a criança vá se afastando da disciplina."

A área, explica, começa a se tornar um "bicho-papão" para as crianças a partir dos nove anos de idade.

"Pai que diz à criança que ele nunca gostou de matemática está passando o sinal de que não é importante conhecer o assunto", completa.
Olimpíadas de Matemática

O Brasil vai sediar nos próximos dois anos os dois maiores eventos mundiais de matemática, ambos no Rio de Janeiro, que poderão contribuir, na avaliação de Viana, para "mudar a cultura" em relação ao tema e popularizá-lo no país.

A Olimpíada Internacional de Matemática será em julho de 2017. Em agosto de 2018, ocorrerá o Congresso Mundial de Matemáticos, realizado pela primeira vez em um país do hemisfério sul, apesar de existir desde o século 19.

Nesse evento, realizado a cada quatro anos, é entregue a medalha Fields, conhecida como o "Prêmio Nobel da matemática", que o brasileiro Artur Avila, também do Impa, recebeu em 2014.

O Impa irá lançar diversas atividades durante esse período, como o "Festival da Matemática", em abril do ano que vem, "que visa um público amplo", diz Viana.

"Os eventos no Rio vão permitir que alcancemos um público que de outra forma não alcançaríamos."

O pesquisador afirma ainda que acha má-ideia a fusão, pelo governo interino de Michel Temer, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com o das Comunicações.

"Não se mexe em time que está ganhando", diz, se referindo ao fato que desde a criação do ministério, há mais de 30 anos, houve uma evolução dos indicadores científicos e tecnológicos no país, que, a seu ver, pode ser atribuída em "boa parte" à ação da pasta.

"Um país que já é uma potência mundial na pesquisa em matemática, como comprovam as muitas conquistas, como a medalha Fields de Artur Avila, precisa tornar-se uma potência mundial também nas salas de aulas e em seus lares", afirma Viana.
"Um país que já é uma potência mundial na pesquisa em matemática precisa se tornar agora uma potência mundial também nas salas de aulas", diz Viana
ORIGEMDOTEXTO:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36486579

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Qual é o país mais bem educado do mundo?

Hospitalidade japonesa combina requintada com desejo de manter a harmonia e evitar conflitos

Steve John Powell e Angeles Marin Cabello Da BBC Travel

   Hospitalidade japonesa combina requintada com desejo de manter a harmonia e evitar conflitos

O Sol já começava a sumir no mar, alertando que talvez tivéssemos matado muito tempo em nosso passeio de bicicleta pela ilha japonesa de Ninoshima, na baía de Hiroshima.

Sem saber o horário do último ferry-boat para o continente, paramos em um bar de beira de estrada para perguntar. A questão motivou olhares preocupados de todos os lados: o último barco estava prestes a sair.


"Você pode conseguir se pegar um atalho", disse um homem, saindo do bar e indicando uma rua estreita morro acima. Como a noite caía rápido, tínhamos sérias dúvidas se conseguiríamos, mas partimos mesmo assim.

Olhando em volta, ficamos impressionados ao ver nosso novo amigo subindo correndo o morro atrás de nós a uma distância discreta, para assegurar que não nos perdêssemos.

Ele só voltou depois que o porto apareceu à frente. Sua gentileza espontânea permitiu que entrássemos no ferry com alguns minutos de folga.


Essa foi uma de nossas primeiras experiências com a omotenashi, que costuma ser traduzida como "hospitalidade japonesa". Na prática, a expressão combina uma polidez requintada com um desejo de manter a harmonia e evitar o conflito.
Modo de vida

Omotenashi é um modo de vida no Japão. Pessoas resfriadas usam máscaras cirúrgicas para evitar infectar outros. Vizinhos se presenteiam com caixas de sabão em pó antes de iniciar obras - um gesto para ajudar a limpar suas roupas do pó que inevitavelmente será produzido.

Funcionários em lojas e restaurantes te cumprimentam com uma deferência e um caloroso irasshaimase (bem-vindo). Colocam a mão embaixo da sua na hora de dar troco para evitar que qualquer moeda caia. Quando você deixa a loja, não é raro que fiquem na porta se curvando até perdê-lo de vista.


Máquinas também praticam o omotenashi. Portas de táxis se abrem automaticamente diante de sua chegada - e o motorista de uniforme branco não espera gorjeta. Elevadores se desculpam por deixá-lo esperando, e quando você entra no banheiro o assento do vaso sanitário se levanta.

Placas indicativas de obras trazem uma imagem fofa de um trabalhador se curvando em deferência.

Na cultura japonesa, quanto mais uma pessoa vem de longe, maior é a cordialidade em relação a ela - daí a razão de estrangeiros (gaijin - literalmente "pessoas de fora") invariavelmente se impressionarem com a cortesia.

"Ainda me surpreendo depois de nove anos aqui", afirma a professora de espanhol Carmen Lagasca. "As pessoas se curvam ao sentar perto de você no ônibus, e depois de novo quando se levantam. Todo dia percebo algum gesto novo."
Ensinamentos

Mas omotenashi vai além de ser gentil com visitantes; essa atitude perpassa todos os níveis da vida cotidiana e é ensinada desde os primeiros anos de vida.

"Muitos de nós cresceram com um provérbio", diz Noriko Kobayashi, chefe de turismo interno no consórcio DiscoverLink Setouchi, que busca criar empregos, preservar o patrimônio e promover o turismo em Onomichi, na região de Hiroshima.
Image copyright Mixa/Alamy Stock Photo
Image caption Antes de começar reformas, as pessoas oferecem caixas de sabão em pó aos vizinhos

"Ele diz assim: 'Depois que alguém fez algo bom a você, nós devemos fazer algo bom a outra pessoa. Mas depois que alguém faz algo ruim a você, nós não devemos fazer algo ruim a outra pessoa.' Acho que esses ensinamentos nos fazem ser educados no comportamento."

Mas, de onde vem toda essa cortesia e educação? Para Isao Kumakura, professor emérito no Museu Nacional de Etnologia, em Osaka, grande parte da etiqueta japonesa tem origem nos rituais formais de cerimônias de chá e de artes marciais.

Na verdade, a palavra omotenashi, literalmente "espírito de serviço", vem da cerimônia de chá. O anfitrião dessas cerimônias trabalha duro para proporcionar o clima certo para entreter convidados, escolhendo a louça, flores e decoração sem esperar nada em troca.

Os convidados, cientes dos esforços do anfitrião, respondem mostrando uma gratidão quase reverencial. Os dois lados criam um ambiente de harmonia e respeito, ancorado na crença de que o bem público vem antes da necessidade particular.
Código samurai

Do mesmo modo, delicadeza e compaixão eram valores centrais do bushido (o caminho do guerreiro), o código de ética do samurai, a poderosa casta militar que era altamente treinada em artes marciais.

O complexo código, análogo ao da cavalaria medieval, não governava apenas a honra, disciplina e moral, mas também o jeito certo de fazer tudo, da deferência ao ato de servir chá.

Seus preceitos zen demandavam domínio das emoções, serenidade interna e respeito pelo outro, incluindo o inimigo. O bushido se tornou a base para o código de conduta da sociedade em geral.
Image copyright Angeles Marin Cabello
Image caption No Japão, a hospitalidade perpassa todos os níveis do cotidiano e é aprendida desde cedo

Uma coisa maravilhosa de estar exposto a tanta gentileza é que se trata de algo tão contagioso como catapora. Você rapidamente estará sendo mais gentil e civilizado, entregando carteiras perdidas à polícia, sorrindo ao dar vez a outros motoristas, levando seu lixo para casa e nunca - nunca - levantando a voz ou assoando o nariz em público.

Não seria ótimo se todo visitante levasse um pouco de omotenashi para casa e espalhasse por aí? O efeito cascata poderia mudar o mundo.

Leia a versão original desta reportagem, em inglês, no site BBChttp://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-36422151

terça-feira, 10 de maio de 2016

O matemático que ouvia as fórmulas impossíveis sussurradas pelos deuses

Dev Patel no papel de Ramanujan

Filme conta a história de Srinivasa Ramanujan, um matemático indiano autodidata que revolucionou a ciência no início do século

por Daniel Mediavilla


Em 1913 o matemático G. H. Hardy recebeu uma carta com um conteúdo incrível. O autor era um jovem indiano, Srinivasa Ramanujan, capaz de produzir fórmulas inverossímeis, apesar de não ter recebido educação formal em matemática pura. Apesar de ter respondido com ceticismo a princípio, Hardy acabou levando Ramanujan de Madras, no sul da Índia, para o Trinity College, em Cambridge (Reino Unido) a fim de tentar desvendar o segredo daquele gênio autodidata.


Aquele foi, diria Hardy mais tarde, o único evento romântico de sua vida. O encontro serviu para mostrar ao mundo trabalhos como as fórmulas que permitiam calcular em alta velocidade os infinitos decimais do número pi. Hoje, um século depois, o legado da breve vida de Ramanujan continua influenciando a matemática, a física e a computação.

A história desse encontro é contada agora em O homem que conhecia o infinito, protagonizado por Jeremy Irons (Hardy) e Dev Patel (Ramanujan). Desde sua origem, é relatado este encontro improvável entre um indiano religioso, casado com uma garota de 10 anos e praticante de uma religião que não permitia que cruzasse o mar, com um racionalista ateu membro da elite intelectual eurocêntrica da época.

“Não acredito na sabedoria imemorial do Oriente, mas acredito em você”, diz Hardy a Ramanujan em um momento. O indiano sentia que um ser superior, sua deusa, sussurrava as fórmulas que resolviam problemas impossíveis. Hardy, fascinado pelo seu talento natural, tentava que ele mesmo reconstruísse o caminho para que alguém sem a mesma inspiração pudesse chegar às mesmas conclusões.

Além dos desafios científicos, o filme mostra a rejeição que Ramanujan precisou enfrentar na Inglaterra. Apenas os esforços de Hardy, e o apoio de alguns membros da faculdade Trinity como J. E. Littlewood, permitiram que fosse reconhecido em um mundo que ainda justificava o colonialismo na existência de raças inferiores como a do matemático indiano.

“Não acredito na sabedoria imemorial do Oriente, mas acredito em você”, diz Hardy a Ramanujan

O exemplo de Ramanujan pode ser usado para apoiar a hipótese de que a linguagem matemática é algo inscrito no cérebro de todos os seres humanos. Como Mozart fazia com a música, Ramanujan tinha a capacidade de fazer brotar do seu interior fórmulas que serviam para explicar a natureza. Milhões de anos de evolução teriam criado as estruturas neurais que servem para entender o mundo e, no caso de Ramanujan, permitiam descrevê-lo com as equações mais sofisticadas.

O brilho do matemático indiano foi breve. Seus resultados e o apoio da Hardy o levaram à Royal Society e a ser membro do Trinity College, mas não aproveitaria muito essas honras. Em 1920, com 32 anos e somente sete depois de ter enviado a carta que o levou à Inglaterra, uma tuberculose que alguns atribuem em parte ao seu trabalho extenuante acabou com sua vida

ORIGEM DO TEXTO http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/29/ciencia/1461947303_754418.html

quarta-feira, 30 de março de 2016

Professor, o foco do sistema educacional finlandês

Sanni Grahn-Laasonen esteve em São Paulo para falar sobre novas tendências no currículo

Em entrevista ao Carta Educação, ministra da Educação da Finlândia explica que segredo está no alto nível de formação dos docentes e na liberdade que eles têm em sala de aula

por MARSÍLEA GOMBATA 30 de março de 2016

À frente do Ministério da Educação e Cultura desde maio de 2015, Sanni Grahn-Laasonen se orgulha em dizer que a Finlândia não tem como norte testes amplos e padrões, mas faz um trabalho de formiguinha, dia a dia, com uma figura central no sistema educacional: o professor. “Não temos testes padrões na Finlândia. E eu diria que não estamos fazendo as coisas para nos sairmos melhor no Pisa. Estamos focados em ensinar, em elementos, por exemplo, que podem melhorar a educação de professores e promover a liberdade desses ao ensinar”, disse em entrevista ao Carta Educação, durante a rápida passagem por São Paulo, onde participou do evento Finlândia: Novas tendências em Educação, no Colégio Rio Branco, ao lado de de reitores de universidades finlandesas.

Mestre em Ciências Sociais, Sanni tem 32 anos e foi ministra do Meio Ambiente antes de ocupar a pasta de Educação. Ciente de a educação é não somente o caminho para mudanças estruturais no Brasil e na América Latina, mas também alicerce de um Estado de bem-estar social, ela insiste que a chave para um bom sistema educacional passa pelo alto nível de formação do corpo docente. “Para que alguém se torne professor na Finlândia, tem de ter um nível bom, com cinco anos de formação que contemplam dois de mestrado. Então, sabemos que podemos contar com eles, não precisamos nos preocupar, pois sabem o que estão fazendo. Mas isso é possível graças a um nível de formação alto exigido dos professores”, observa. “O segredo do nosso sistema educacional são os professores. Eles fazem seu trabalho com liberdade, não dizemos quais livros ou materiais usar ou como devem ensinar, se dentro ou fora da sala de aula. Os melhores estudantes acabam se tornando professores.“

Leia a entrevista a seguir:

Carta Educação – Os países escandinavos sempre foram vistos como exemplos para os latino-americanos, especialmente no que diz respeito a temas relativos a um Estado de bem-estar social (educação, saúde etc), cujas bases aqui estão muito aquém. Quais seriam os elementos necessários para a criação de sistema de proteção social? De que maneira a igualdade trazida pelo estado de proteção social ajuda a ter uma educação de melhor qualidade?

Sanni Grahn-Laasonen – Acredito que tudo começa com a educação. A educação cria o Estado de bem estar social, promove direitos humanos e democracia.  Educação é também a base para o crescimento econômico, já que para um país se tonar inovador precisa ter um sistema educacional bom. Então eu começaria focando nisso, na educação desde a primeira infância. Na Finlândia, por exemplo, temos jardins da infância, educação primária e educação básica totalmente grátis e um dos nossos valores mais fortes é o da igualdade. Ou seja: não importa o conhecimento que se tem, o tipo de família da qual vem, quem são seus pais, onde se vive, todos têm uma educação excelente. Então não é apenas para pais que têm dinheiro e querem oferecer uma boa educação a seus filhos, mas para todos. Toda criança tem acesso a uma educação de alta qualidade, e todas as escolas são boas, não interessa a cidade ou região sobre a qual estamos falando na Finlândia.

CE – Um dos tópicos sobre o qual a senhora e sua comitiva vieram falar é a formação de professores. Os docentes na Finlândia são supervalorizados, ganham bem, são escolhidos entre os melhores alunos, e possuem bastante liberdade, uma vez que escolhem a maneira como ensinam, o material e o espaço a serem utilizados no aprendizado. Desde quando o sistema funciona assim? Não existe o risco de haver, portanto, formações e processos de aprendizagem diferentes?

SGL – É necessário se ter professores excelentes para existir um bom sistema educacional. Para que alguém se torne professor na Finlândia, tem de ter um nível bom, com cinco anos de formação que contemplam dois de mestrado. Então, sabemos que podemos contar com eles, não precisamos nos preocupar, pois sabem o que estão fazendo. Mas isso é possível graças a um nível de formação alto exigido dos professores. Eu acho que temos de confiar neles e mostrar isso, para que tenham liberdade e possam, ao mesmo tempo, ter responsabilidade.  Tudo é baseado na confiança.

Somos um dos mais bem posicionados países no Pisa (Programme for International Student Assessment), da OCDE. Mas com educação sempre temos de ter um olhar adiante. O segredo do nosso sistema educacional são os professores. Eles fazem seu trabalho com liberdade, não dizemos quais livros ou materiais usar ou como devem ensinar, se dentro ou fora da sala de aula. Os melhores estudantes acabam se tornando professores. Se me pedissem conselho de algum país, eu diria: invista em professores e em sua educação.

CE – Existe uma grande discussão em torno do currículo escolar: se ele deve ser compartimentado em disciplinas como matemática, química, biologia, gramática ou se deve trabalhar dentro de uma perspectiva interdisciplinar. Desde o início do ano, os centros de ensino da Finlândia começaram a aplicar um novo método conhecido como “phenomenon learning”. Como funciona esse método e de que maneira ele prepara o aluno para um pensamento transdisciplinar?

SGL – Isso não significa que deixamos de ter disciplinas. Continuamos a tê-las, mas o novo é que estamos tentando trazer coisas que estão acontecendo na vida real para a sala de aula, para estudar do que se trata segundo diferentes pontos de vista. Então escolhemos um fenômeno – mudança climática ou crise econômica, por exemplo – e então você começa a olhar o fenômeno a ser estudado por diferentes perspectivas, seja o background de História, Biologia ou Matemática que você tem. É um tipo de mecanismo que ajuda os alunos a aprender a pensar.

E dentro das disciplinas, estamos trabalhando em um novo currículo que fala sobre diferentes habilidades, com diferentes tecnologias e espaços de aprendizagem. Não é apenas trazer computadores para as salas, mas saber como utilizar tecnologias como games e outras ferramentas para os alunos se sentirem motivados a aprender.

Na Finlândia, é importante dizer, os políticos não elaboram o currículo educacional. Quem é responsável por isso é um conselho nacional, composto em sua maioria por experts. Eu tenho orgulho disso, pois não acho que políticos deveriam fazer esse tipo de coisa.

CE – Todos os anos, a Finlândia apresenta uma boa colocação no Pisa. Como funcionam os sistemas de avaliação de alunos no País? Como a senhora vê o Pisa, ao colocar no mesmo grupo países com estruturas tão distintas?

SGL – Não temos testes padrões na Finlândia. E eu diria que não estamos fazendo as coisas para nos sairmos melhor no Pisa. Estamos focados em ensinar, em elementos, por exemplo, que podem melhorar a educação de professores e promover a liberdade desses ao ensinar.

Não queremos provas padrões na Finlândia porque queremos que o professor tenha espaço para ensinar, que os estudantes possam aprender. Todo o foco deveria estar voltado para aprender e ensinar. E disso virão os bons resultados.

CE – O mestrado na Finlândia era de graça até este ano, mas a partir do ano que vem qualquer aluno estrangeiro que não seja de países da União Europeia passa a pagar para estudar lá. Por que a decisão de começar a cobrar?

SGL – A maioria dos países ao redor do mundo cobra, então por isso resolvemos cobrar. Ainda temos uma bolsa para alguns estudantes de fora. E esperamos conseguir muitos outros, de diferentes lugares do mundo.

CE – Como enxerga a discrepância entre homens e mulheres na América Latina, onde as diferenças de gênero e falta de representatividade das mulheres ainda é gritante – apesar de representarem mais de 50% da população brasileira, as mulheres são menos de 10% das vagas da Câmara dos Deputados e pouco mais de 15% das do Senado. Isso é reflexo do sistema educacional? Como mudar isso?

SGL – Eu acredito que sim e, de novo, acho que a educação poderia ajudar a mudar isso. A Finlândia é um dos primeiro países no mundo a dar às mulheres o direito de votar. No Parlamento creio que somos cerca de 84 mulheres dentre 200 membros legislativos, ou seja, somos quase metade da Casa. Na Finlândia, eu não tenho de fazer escolhas entre família ou carreira, eu posso ter ambas. Eu tenho uma filha de 3 anos de idade, e meu marido também trabalha fora e cuida dela. Na Finlândia isso é possível. O que eu diria para o mundo inteiro é: mulheres, podemos fazer qualquer coisa, não deveria haver barreiras no mundo para nós.

ORIGEM DO TEXTO: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/professor-o-foco-do-sistema-educacional-finlandes/

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Ler para as crianças


O que está escrito tem pausas, silêncios e ritmos próprios

Ao ouvir histórias, os bebês, assim como as crianças, têm seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social estimulado

por NINFA PARREIRAS

O que está escrito tem pausas, silêncios e ritmos próprios
Por que as crianças gostam de ouvir histórias? Como os adultos podem ler contos e poemas para elas? A história contada é diferente da lida? São questões que devem ser discutidas entre os educadores e também no seio das famílias. A leitura é um alimento necessário para a participação na vida social e para a formação cidadã da criança.

Ao aprender a ler, ela se apropria do mundo ao seu redor. Isso se dá quando diferentes práticas de leitura acontecem, com a aproximação a uma diversidade de livros.

As crianças hoje são levadas para a escola cada vez mais cedo, antes mesmo de completarem os primeiros anos, e a escola passa a ser o lugar onde ela precisa brincar, aprender e ser cuidada. Brincar é uma atividade necessária para todos.

Na infância, a brincadeira possibilita o exercício da fantasia e facilita a comunicação. Mesmo que não haja brinquedos, a criança os inventa.

Leia atividade didática para a Educação Infantil sobre leitura

Expectativas de aprendizagem: Familiarizar-se com diferentes suportes: revistas, livros, jornais; Acompanhar a leitura de textos lidos em voz alta por adultos

Leia atividade completa
Desde pequena, ela estabelece uma relação com algum objeto ao seu redor, que pode ser um brinquedo ou também um livro. É por meio do contato com esses objetos que ele vai conhecer as coisas e as pessoas: ao tocar, ao levar à boca, ao sentir o que existe perto dele. Ele descobre ruídos, texturas, sabores, cheiros, cores.

Ao mesmo tempo, a entrada no universo da linguagem se dá antes mesmo de a criança entrar para a escola. A maneira como os adultos a cuidam: o olhar, os gestos, os ruídos (desde os sons sem sentido às cantigas), tudo isso inaugura o processo da aproximação à leitura. Antes da comunicação verbal, o bebê aprende a comunicação não verbal, revelada pelos modos como os adultos se interagem com ele.

Em pesquisa recente da Fundação Itaú Social, 96% dos brasileiros consideram importante ou muito importante o incentivo à leitura para crianças pequenas, de até cinco anos. Porém, apenas 37% dos entrevistados costumam ler livros ou histórias para elas. Por que poucos adultos leem para as crianças? Quais receios ou falta de informação podem desencadear esses resultados?

A leitura não atrapalha o desenvolvimento escolar da criança, ela é uma ferramenta para os pais e educadores. As crianças precisam ouvir histórias para aguçar sua imaginação. Isso facilita o processo de letramento, de aquisição da leitura e escrita autônomas. Ao ouvir histórias, seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social é estimulado.

A escola, como um espaço cultural, tem um potencial para educar, entreter, alimentar, cuidar dos alunos. Os educadores podem e devem criar situações lúdicas em que os sons e as palavras são os instrumentos para introduzir a criança no mundo da literatura.

Ao cantar versos para as crianças ou juntamente com elas, o educador traz um ritmo e uma melodia que são repetidas por elas.

Novas palavras e novos sons são descobertos. Ao fazer uma roda e ler uma história ou um poema, o educador estabelece um momento de encantamento e de descobertas. A criança espera a hora do conto ou a rodinha de histórias. Isso pode ser uma rotina na prática escolar.

Muitas vezes, por falta de informação ou de esclarecimentos, o contato com a leitura se dá de uma forma mecânica e pouco natural. Ao cantar (cantigas de ninar e de roda, adivinhas, parlendas) para os bebês e crianças, os adultos contribuem para a aproximação deles à literatura.

A tradição oral revela um manancial de expressões que podem iniciar os pequenos no universo literário. Ao mesmo tempo, a cultura letrada está cada vez mais perto de nós e o direito à leitura literária deve ser de todos.

A literatura, por ser uma invenção em palavras, abre um leque de possibilidades interpretativas que o texto informativo não tem.

Antes de a criança frequentar a escola, os pais deveriam envolvê-la com a literatura, seja por meio dos acalantos, das cantigas, seja por meio dos livros de histórias e de poesia. É importante a criança ouvir o texto lido. Um conto lido é diferente de uma história contada.

O que está escrito tem pausas, silêncios, ritmos próprios da língua escrita. A voz e a cadência da leitura marcam uma relação de confiança, de acolhimento para quem ouve.

Para tanto, é necessário que o local seja preparado para o conforto das crianças, estejam sentadas ou deitadas. O adulto deve ler e ao mesmo tempo olhar para as crianças.

Não deve se preocupar com conteúdos pesados (a violência, por exemplo) que estejam em textos ficcionais. A ficção é uma coisa que foi criada para divertir, distrair quem lê.

As crianças sabem que nos livros há histórias cheias de encantamento, de fantasia, de terror. Elas precisam disso para viver, para elaborar as vicissitudes da vida cotidiana.

Quando sonhamos, reproduzimos imagens e sensações que fogem ao nosso controle, à nossa razão. As histórias ficcionais são feitas também desse material dos sonhos: da desrazão, daquilo que não tem explicação racional.

Esses elementos presentes na literatura ajudam as crianças a entenderem os mistérios da nossa existência: o crescimento, as mudanças no corpo, as separações e as faltas.

As famílias devem se comprometer com o trabalho desenvolvido pela escola. O educador pode convidar os responsáveis pelas crianças para encontros com a leitura de obras selecionadas. Por sua vez, pedir a criança para trazer um livro de casa é uma maneira de conhecer o repertório da família.

Um convite aos pais para ler para as crianças ou contar uma história (quando não conseguem ler) pode ser um passo para um vínculo entre a escola, a família e a leitura.

Uma vez por mês contar com a presença de um familiar que vai ler uma história e conversar pode ser a consolidação de um trabalho literário que aproxima a criança, a escola e a família da literatura.

* Ninfa Parreiras é psicanalista, professora e autora de obras literárias e de ensaios para adultos, como O Brinquedo na Literatura Infantil: Uma Leitura Psicanalítica (Biruta) e Do Ventre ao Colo, do Som à Literatura: Livros para Bebês e Crianças (RHJ)

ORIGEM DO TEXTO http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/ler-para-as-criancas/

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Você sabe estudar?

O autoteste provou ser o método de estudo mais positivo. Já grifar trechos do texto é pouco eficaz

Pesquisa analisou o impacto de diferentes métodos de estudo na aprendizagem. Grifar e fazer resumos são técnicas pouco eficientes

 Uma má notícia para estudantes acostumados a estudar na véspera das provas. Aquelas oito ou mais horas debruçados sobre os livros madrugada adentro nem de longe serão tão produtivas quanto as horas de alunos que estudaram talvez a metade do tempo, mas o fizeram de forma espaçada.

Essa é uma das conclusões do estudo americano “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology” (“Melhorando a Aprendizagem dos Alunos com Técnicas Eficazes de Aprendizagem: Caminhos promissores da psicologia cognitiva e educacional, em tradução livre”), publicado no periódico científico Psychological Science in the Public Interest.

O levantamento analisou dez diferentes estratégias comumente utilizadas para descobrir quais demonstravam resultados mais ou menos eficazes para a aprendizagem.


“Lemos centenas – se não mais de mil – estudos sobre o tema e sintetizamos os resultados, procurando as limitações de cada técnica”, explica, a Carta Educação, John Dunlosky, membro do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Kent, em Ohio, e um dos autores da pesquisa.

ENTRE OS MÉTODOS DE ESTUDO POUCO EFICAZES, DESPONTARAM PRÁTICAS POPULARES E CONSOLIDADAS DENTRO DAS ESCOLAS COMO RESUMIR, RELER E GRIFAR TEXTOS.
“Na verdade, quase todos os alunos releem seus materiais de estudo, mas o problema é que quando fazem isso, quase sempre, só passam os olhos por cima e não processam o conteúdo profundamente, o que é fundamental para a compreensão de temas mais difíceis”, explica Dunlosky.

O pesquisador aponta que o problema não é intrínseco aos métodos, mas está na maneira como são praticados.

“Claro que resumir pode ser uma habilidade importante em si e eu nunca tiraria um marcador de texto de um estudante – eu até tenho um favorito. Mas, os alunos precisam entender que o uso de um marcador para destacar conteúdos é apenas o início da jornada de aprendizagem”, diz.

Em outras palavras, eles precisarão voltar e estudar o material destacado, utilizando estratégias eficazes se realmente querem aprender.

Por outro lado, o autoteste mostrou-se uma das técnicas de estudo mais eficientes e é ainda mais benéfico quando seguido de um feedback (isto é, da verificação da resposta correta e consideração do por que ela está correta e as outras não) e espaçado ao longo do tempo.

“Muitos alunos viram a noite antes dos exames, o que leva à má retenção da informação – eles esquecem quase tudo logo após a prova!”, conta o professor. Mas, ao fazer sessões de estudo mais curtas e bem distribuídas ao longo do tempo, os estudantes podem realmente impulsionar as chances de retenção do que aprenderam.

“A chave é estudar o mesmo conteúdo (usando uma estratégia eficaz como testar a si mesmo) várias vezes para ter os maiores benefícios e sucesso a longo prazo”, aconselha.

Um dos critérios usados para avaliar a pertinência das estratégias foi ver se, de forma geral, elas funcionavam para todas ou apenas para algumas pessoas. Assim, uma estratégia como desenvolver imagens mentais recebeu baixas pontuações, porque algumas pessoas relataram dificuldades em fazer isso.

“Logo, essa é uma estratégia que não funciona para todos. No entanto, testes e estudos espaçados podem beneficiar praticamente todo mundo”, explica o pesquisador.

Se essas técnicas se mostram, na prática, tão exitosas, por que alunos e professores continuam a ignorá-las?

“Acho que uma dificuldade está no fato de os programas de formação de professores não enfatizarem essas estratégias e como elas podem ser facilmente aplicadas para a melhoria da aprendizagem e desempenho dos alunos. Dado o quão fácil é usar estratégias como estudos espaçados e testes práticos, no entanto, estou otimista de que muitos professores vão agora usá-los em suas aulas”, diz Dunlosky, acrescentando que os métodos não são uma solução milagrosa para as dificuldades de aprendizagem dos alunos, mas que podem ajudar.

Questionado se os resultados do estudo significam que milhares de escolas ao redor do mundo estão desperdiçando, de forma errônea, seus esforços, Dunlosky pondera. “Isso é difícil de dizer, mas me parece que as estratégias mais eficazes estão sendo subutilizadas.”

O pesquisador lembra ainda que métodos ultrapassados de estudo não são exclusividade da Educação Básica. “Infelizmente, mesmo professores universitários mantêm alguns dos mesmos equívocos sobre o que funciona melhor, o que ajuda a perpetuar o problema”, conta.

A expectativa é de que não somente os estudantes, mas também professores e educadores possam se valer das informações reveladas pelo estudo para aperfeiçoar o ensino e o cotidiano escolar, de forma geral.

“Para os professores, recomendo começar cada classe com uma revisão diária do conteúdo, o que implicaria um teste breve com os alunos sobre o tópico mais importante visto na aula anterior”, recomenda Dunlosky.

Segundo o pesquisador, essa revisão deve envolver um teste “não decisivo”, ou seja, que não comprometa o aluno, e precisa ser seguido por um feedback, em que o professor explique a resposta correta e por que outras respostas comumente dadas não estão corretas.

“Esses aquecimentos vão ajudar os alunos a aprender o material, além de trazer o benefício adicional de reduzir a ansiedade de quando eles se sentam para fazer um teste mais decisivo”, explica o professor.

ORIGEM DO TEXTO  http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/voce-sabe-estudar/

O matemático peruano que resolveu um problema de quase 300 anos


Quando tinha oito anos, o peruano Harald Helfgott se colocava questões matemáticas que talvez só fossem feitas aos seus colegas bem mais adiante, no ensino médio. Por que 0,99999 até o infinito pode ser igual a 1? Como achar a raiz quadrada de -1? Como achar a raiz quadrada de um número imaginário? Harald encontrava as respostas e se sentia maravilhado: "Era um grande prazer responder às minhas próprias perguntas no colégio", disse ele, em entrevista à BBC Mundo. O matemático Helfgott, nascido em Lima, em 1977, frequentou uma escola na capital peruana e, com o passar dos anos, potencializou sua curiosidade matemática.

 O resultado disso foi uma carreira brilhante. Uma bolsa de estudos na Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, acabou resultando em um doutorado em Princeton e um pós-doutorado em Yale, essas últimas, duas das mais respeitadas universidades do país. Depois disso, Helfgott tornou-se pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, na França. Em 2015, Helfgott tornou-se o primeiro latino-americano e também o cientista mais jovem a ganhar o Prêmio de Pesquisa Humboldt, concedido pela Fundação Alexander von Humboldt, da Alemanha. Ele receberá US$ 3,9 milhões por ter respondido uma pergunta que vinha desafiando matemáticos do mundo inteiro há quase trezentos anos: É verdade que todo número ímpar maior do que cinco pode ser expresso como uma soma de três números primos? A pergunta fazia parte da chamada Conjectura Fraca de Goldbach.

Em 1742, o matemático prussiano Christian Goldbach enviou uma carta a seu colega suíço Leonhard Euler na qual propunha que todo número par maior do que dois podia ser expresso como a soma de dois números primos e que todo número ímpar maior do que cinco podia ser expresso como a soma de três números primos - números divisíveis por apenas quatro números (o próprio, 1 e os respectivas negativos), com por exemplo, 3 e 17. Nem Goldbach nem Euler foram capazes de provar as afirmações, por isso permaneceram como suposições, ou conjecturas. A segunda ficou conhecida como "fraca" porque estava contida na primeira, que passou a chamar-se "forte". "O trabalho sério para provar a conjectura fraca começou no início do século 20", disse Helfgott. "Antes, não se sabia nem por onde começar".

Em 2005, o matemático começou a estudar o trabalho de outros cientistas que haviam provado a conjectura fraca para determinados números. O enunciado de Goldbach soava simples, mas prová-lo para todos os números ímpares até o infinito era algo muito complexo. Helfgott começou a buscar uma prova em 2006. Em fevereiro de 2012, já bem perto de encontrar a prova, a rotina do matemático era a seguinte: levantava-se muito cedo todos os dias para se dedicar à sua missão e chegava ao laboratório durante a tarde. Só então conferia a caixa de entrada do correio eletrônico e fazia buscas de informações. Isso porque havia suspendido a conexão com a internet em casa. Não queria se distrair. À noite, voltava a se concentrar no trabalho da conjectura até a hora de dormir. Em junho de 2013, sete anos depois de ter iniciado a busca, Helfgott finalmente encontrou a resposta. Em um trabalho com 79 páginas, demonstrou que a Conjectura Fraca de Goldbach estava certa. Para que serve a conjectura?

A demonstração da conjectura, por si só, talvez não sirva para nada, ele explicou. "Por outro lado, as ideias e ferramentas usadas para se obter a demonstração serão úteis para a teoria dos números - entre outros usos adicionais", disse Helfgott. Graças ao seu trabalho, o matemático peruano foi convidado para dar aulas na Austrália e em vários outros países da América, Europa e Ásia. Agora, está fazendo pesquisas sobre a teoria dos números no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro.

 Em seu tempo livre, o matemático pretende cozinhar pratos peruanos para os amigos e voltar às aulas de tango.

E será que ele pretende tentar demonstrar a Conjectura Forte de Goldbach? "Falta desenvolver ferramentas, ideias para que possamos prová-la", explicou.

"Não acredito que isso esteja ao alcance da comunidade matemática no momento."

Origem do texto:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151004_matematico_peruano_helfgott_mv

Aprendendo a aprender

 "Aprender Matemática é muito parecido com aprender a tocar um instrumento – é preciso prática diária, ao lado de lições teóricas", defende Barbara


POR TORY OLIVEIRA


Professora de 700 mil alunos, Barbara Oakley afirma que a prática é mais importante do que a teoria na hora de aprender Matemática


Assim como muitos de nós, Barbara Oakley, 60 anos, professora de Engenharia na Universidade de Oakland, em Rochester, no estado norte-americano de Michigan, era má aluna em Matemática na escola.

Por causa da experiência ruim, nunca gostou da disciplina e entrou para o Exército dos Estados Unidos assim que pegou o diploma de Ensino Médio, determinada a estudar línguas, mais especificamente, o russo.

Ao fim da experiência, porém, percebeu que seus colegas engenheiros do exército conseguiam resolver problemas com mais facilidade e tinham mais perspectivas de emprego do que ela.

Assim, contra todas as expectativas, enveredou pelo campo das ciências exatas e, a partir de suas próprias experiências e estudos na área de neurociências, desenvolveu técnicas para “aprender a aprender”.



Não por acaso, esse é o título do livro recém-lançado no Brasil pela editora Nova Mídia e também o do curso massivo online que Barbara desenvolveu em parceria com o professor Terrence Sejnowski, o terceiro mais popular da plataforma Coursera, com 700 mil alunos em 200 países.

Nessa entrevista, a californiana fala sobre sua trajetória, a experiência ensinando um curso a distância e dá dicas para melhorar a aprendizagem.

Carta Educação: Por que é necessário “aprender a aprender”? Em poucas palavras, como é possível fazer isso?

Barbara Oakley: Você já tentou resolver um problema e se viu cada vez mais frustrado, até finalmente desistir – e então sentiu-se mal consigo mesmo por desistir em vez de resolver o problema? Não precisa ser assim. Muitas vezes, para resolver problemas mais difíceis, você precisa desistir – apenas quando sua atenção está fora do problema é que outras redes do seu cérebro são ativadas para permitir que você ache a solução. Isso é aquele momento “eureca!” que você sente depois, quando a solução para o problema surge repentinamente em seu cérebro. Se você soubesse mais sobre como o cérebro funciona, você não teria de sofrer tantas frustrações ao estudar tópicos mais difíceis. Há muitas outras formas de saber mais sobre como nós aprendemos e que podem ser úteis no processo de aprendizagem. Por isso escrevi o livro Aprendendo a Aprender e é também por isso que Terry Sejnowski e eu criamos o MOOC de mesmo nome.

CE: No seu livro Aprendendo a Aprender, a senhora descreve sua experiência como uma estudante que não se dava muito bem nas aulas de Matemática. Como redescobriu a disciplina e acabou tornando-se professora de Engenharia?

BO: É simples – o mundo está mudando. Atualmente é muito mais difícil conseguir um emprego sem algum tipo de know-how técnico. Eu alistei-me no exército logo depois de terminar o Ensino Médio com o objetivo de aprender um idioma. E aprendi russo. Mas descobri que os engenheiros com quem trabalhava no exército eram ótimos resolutores de problemas – e tinham perspectivas profissionais melhores que as minhas. Assim, quando dei baixa do exército aos 26 anos, decidi tentar expandir meus horizontes e enveredei pelas áreas da Matemática e Ciências, em vez de seguir minha paixão natural pela linguagem.
Apesar de engenharia parecer alienígena para a minha personalidade, descobri que, quando eu aplicava técnicas para aprender idiomas para me ajudar a entender Matemática e Ciência, isso funcionava como uma mágica. Como consequência, e para minha surpresa, acabei tornando-me professora de Engenharia!


Hoje professora, Barbara tinha dificuldades com ciências exatas na escola
CE: No Brasil, os resultados dos alunos em Matemática no Pisa são um dos nossos maiores desafios. Por que estudantes em todo o mundo têm dificuldades para aprender Matemática?

BO: Pessoas no mundo todo muitas vezes sentem dificuldade e praticam ao longo de muitos anos a fim de aprender a tocar um instrumento musical, mas ninguém acha que isso é memorável. Aprender Matemática é muito parecido com aprender a tocar um instrumento – é preciso prática diária, ao lado de lições teóricas. Quando não há prática diária – e apenas lições teóricas – as pessoas pensam que Matemática é mais difícil do que ela é realmente.

CE: Recentemente, a senhora escreveu que “o desenvolvimento de uma verdadeira expertise envolve uma prática extensa de modo que a arquitetura neural fundamental que possibilita a expertise tenha tempo para crescer e se desenvolver. Isso envolve muita repetição em diversas circunstâncias”. A senhora acha que os professores de Matemática focam muito na teoria da Matemática, em vez de exercícios?

BO: Sim. Ensinar conceitos leva os professores a pensar, erroneamente, que os estudantes realmente entenderam o material, quando, na realidade, os alunos muitas vezes apenas entenderam uma pequena parte do conteúdo teórico, que desaparece sem a prática. Além disso, ensinar conceitos é mais divertido para os professores do que corrigir lição de casa – os professores são levados a pensar que suas explicações são centrais para os alunos. É a prática que solidifica o entendimento e possibilita a criação de uma expertise verdadeira.
Muitos estudantes não adquirem prática o suficiente com a Matemática para se sentirem confortáveis com o conteúdo e se tornarem conhecedores do tema. Apenas 20 e poucos minutos de prática diária pode ajudar a construir um conhecimento verdadeiro do assunto. Em outras palavras, se as pessoas que tocam algum instrumento musical fossem ensinadas a entender as explicações sobre a teoria, em vez de ter muitas oportunidades para praticar sozinhas, muitas pensariam que não têm uma habilidade natural para tocar violão – que eles são “violãofóbicos” com nenhum talento para a música. O que não seria verdade!

CE: Como avalia o trabalho dos professores de Matemática hoje em dia? O que eles podem fazer, em sua opinião, para melhorar o aprendizado dos seus alunos?

BO: Uma das melhores coisas que os professores podem fazer para ajudar seus alunos é testá-los sempre que possível. Pesquisas mostram que, se os estudantes passarem uma hora estudando, em comparação com uma hora resolvendo testes, eles aprenderam mais com o último. Dou aos meus estudantes da graduação em Engenharia um teste, por exemplo, toda vez que eles entram em sala. Assim, eles se mantêm em dia como o material e conseguem ser bem-sucedidos.

CE: Que elementos destacaria como relevantes para melhorar as técnicas de estudo?

BO: Pratique ativamente o conteúdo você mesmo – não apenas olhe para o problema, veja como é resolvido e deixe por isso mesmo. Explique ideias difíceis em voz alta, como se estivesse ensinando um amigo imaginário. Não só os exercícios da lição de casa uma vez – trate-os como músicas que você precisa praticar várias vezes ao dia até que as soluções surjam naturalmente. Ao ler materiais mais difíceis, não grife várias frases e releia várias vezes. Em vez de grifar, veja se você consegue rememorar as ideias. Isso funciona como mágica para ajudá-lo a entender e lembrar o que você está estudando.

CE: Por que a senhora recomenda o método Kumon?
BO: Recomendo o método Kumon para Matemática, porque dá um reforço extra na prática matemática que, infelizmente, não existe em muitos países do mundo. O Kumon é inteligentemente pensado para gradualmente construir um aprendizado de fato. O fato de especialistas desconfiarem do Kumon nos dá uma boa pista sobre o porquê do Brasil ir mal do Pisa. Olhe para os professores de Engenharia nos EUA. Grande parte deles vem de países onde a prática e a repetição são incluídas como partes importantes do aprendizado matemático nos primeiros anos da escolaridade. Se o Brasil quer atingir patamares de excelência nesses temas, seria muito bom que o método Kumon fosse utilizado.

CE: Quais conselhos daria a alguém que está tendo dificuldades em aprender Matemática?
BO: Pratique um pouco todos os dias. Aproveite nosso curso online e gratuito Aprendendo a Aprender no Coursera e veja você florescer!

ORIGEM DO TEXTO: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/aprendendo-a-aprender/

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Professores não recebem capacitação para o uso pedagógico da internet

67% dos docentes de escolas públicas relataram ter aprendido sobre as TIC por conta própria
POR THAIS PAIVA

Levantamento TIC Educação 2014 aponta a falta de infraestrutura e o gargalo na formação dos professores para o uso das TIC em sala de aula como entraves para uma educação mais conectada

O acesso à internet nas escolas urbanas do País está praticamente universalizado. O computador está presente em 97% das instituições privadas e em 92% das públicas. Entretanto, quando a amostra é esta última, é ainda preciso superar o desafio da qualidade da conexão. É o que nos mostra a pesquisa TIC Educação 2014, lançada em setembro pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Realizado desde 2010, o levantamento mapeia e quantifica o uso das chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nas escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental e Médio do País. Para chegar aos resultados, foram investigadas 930 escolas entre setembro de 2014 e março de 2015 e foram entrevistados 930 diretores, 881 coordenadores pedagógicos, 1.770 professores e 9.532 alunos.

Segundo o levantamento, a velocidade da principal conexão à internet em 33% das escolas públicas brasileiras é bastante limitada, ficando entre 1 a 2 megabits por segundo (Mbp/s). Quando a amostra são as escolas particulares, a velocidade média sobe consideravelmente – 39% das unidades apresentam uma conexão na ordem de 3 a 10 Mbp/s.

Além da questão de infraestrutura, outro empecilho para a implementação e disseminação de escolas mais alinhadas às inovações digitais está na formação dos professores. Segundo a pesquisa, apenas 37% dos docentes de escolas públicas que possuem formação no Ensino Superior cursaram disciplinas ou tiveram algum tipo de capacitação sobre o uso pedagógico das TIC durante a graduação. A maioria (67%) aprenderam a utilizar estas ferramentas por conta própria e 57% declararam ter aprendido fazendo cursos específicos sobre o assunto. Deste grupo, 75% pagaram a capacitação do próprio bolso.

Para Fabio Senne, coordenador de projetos e pesquisas do Cetic, mudar este cenário é fundamental para o melhor aproveitamento dos recursos digitais no ambiente escolar. “Para que a mudança aconteça, é essencial que ela perpasse a formação dos professores. Não só na formação continuada como também na formação inicial, no momento da graduação”, diz.

Outro dado que chama atenção é o fato de apenas 30% dos professores de escolas públicas terem declarado a sala de aula como principal local de uso das TIC. O local mais frequente de uso do computador e internet em atividades com os alunos continua sendo o laboratório de informática. O mesmo observa-se entre os alunos. Apesar de 87% dos estudantes de escolas públicas urbanas serem usuários de internet, esse contato só acontece dentro da escola para 41% dos jovens. Para 77%, o principal local de acesso continua sendo o domicílio.

“A internet ainda é mal vista no espaço escolar. Por exemplo, a imensa maioria das redes de wi-fi das escolas está fechada para os professores e alunos. Quando a escola tem rede wi-fi geralmente é destinada ao setor administrativo”, explica Senne. “Ainda há um buraco no uso pedagógico da rede. Por isso, é importante apoiar a construção de políticas públicas que incentivem isso”.

A boa notícia é que recursos educacionais digitais estão cada vez mais presentes no preparo de aulas ou atividades pelos professores. A TIC Educação 2014 mostra que 82% dos professores se valem das TIC para produzir conteúdos para as aulas, mesmo assim apenas 28% publicam ou compartilham conteúdos próprios a serem utilizados com os alunos na interne

ORIGEM DO TEXTO: http://www.cartaeducacao.com.br/tecnologia/apenas-37-dos-professores-foram-capacitados-durante-sua-graduacao-para-o-uso-pedagogico-da-internet/

domingo, 13 de setembro de 2015

OITO COISAS QUE APRENDI COM A EDUCAÇÃO NA FINLÂNDIA

Professores brasileiros passaram cinco meses em capacitação na Finlândia

POR
Paula Adamo Idoeta

Ensino finlandês é uma das referências mundiais em qualidade da educação
Dona de um dos sistemas de ensino mais elogiados do mundo, a Finlândia recebeu, de fevereiro a julho deste ano, 35 professores de institutos federais brasileiros para treinamento e capacitação.


Embora em 2012 o país nórdico tenha caído do topo para a 12ª posição do Pisa, o principal exame internacional de educação (o Brasil ficou na 58ª posição do ranking, entre 65 países), ele ainda é apontado pela OCDE – a entidade que aplica o Pisa – como "um dos líderes mundiais em performance acadêmica" e se destaca pela igualdade na educação, alta qualificação de professores e por constantemente repensar seu currículo escolar.


Os docentes brasileiros foram selecionados pelo programa Professores para o Futuro, do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Ministério da Educação), para passar cinco meses estudando a educação finlandesa.


A BBC Brasil conversou com quatro desses professores, para conhecer o que viram na Finlândia e saber se lições trazidas de lá podem facilitar seu trabalho em sala de aula e melhorar o aprendizado nas instituições públicas de ensino onde atuam.
Apesar das diferenças com o sistema brasileiro, os professores disseram ver como "pequenas revoluções" o que podem agregar do ensino finlandês em suas rotinas.
"Vou começar com um trabalho de formiguinha, mostrando aos meus colegas o que aprendi, gravando minhas aulas e adaptando (as metodologias) à nossa realidade e aos nossos estudantes", diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.


Os 25 institutos federais que enviaram professores ao país nórdico reúnem cursos de ensino médio, profissional e superior com ênfase em ciência e tecnologia.
Veja o que os professores aprenderam na Finlândia:


1. Usar mais projetos nas aulas


Os professores entrevistados pela BBC Brasil dizem que projetos elaborados por alunos e a resolução de problemas estão ganhando protagonismo no ensino finlandês, em detrimento da aula tradicional.
São as metodologias chamadas de "problem-based learning" e "project-based learning" (ensino baseado em problemas ou projetos). Neles, problemas – fictícios ou reais da comunidade – são o ponto de partida do aprendizado. Os alunos aprendem na prática e buscam eles mesmos as soluções.
"Os projetos são desenvolvidos sem o envolvimento tão direto do professor, em que os alunos aprendem não só o conteúdo, mas a gerir um plano e lidar com erros", diz Bruno Garcês, professor de Química do Instituto Federal do Mato Grosso, que pretende aplicar o método em aulas de experimentos práticos.

Professores brasileiros passaram cinco meses em capacitação na Finlândia
Os professores brasileiros visitaram, na Finlândia, cursos superiores baseados inteiramente nessa metodologia.
"Um curso de Administração tem disciplinas tradicionais no primeiro ano. Mas, nos dois anos e meio seguintes, os alunos deixam de ter professores, passam a ter tutores, formam empresas reais e aprendem enquanto desenvolvem o negócio", diz Francisco Fechine, coordenador do Instituto Federal de Tecnologia da Paraíba.
Não é uma estrutura que sirva para qualquer tipo de curso, mas funciona nos voltados, por exemplo, a empreendedorismo, explica Joelma Kremer, do Instituto Federal de Santa Catarina.
"E os alunos têm uma carga de leitura, para buscar (nos livros) as ferramentas que precisam para resolver os problemas."


2. Foco na produção de conteúdo pelos alunos


A resolução de problemas e projetos é parte de um ensino mais centrado na produção do próprio aluno. Ao professor cabe mediar a interação na sala de aula e saber quais metas têm de ser alcançadas em cada projeto.
"Nós (no Brasil) somos mais centrados em o professor preparar a aula, dar e corrigir exercícios. O aluno faz pouco. Podemos dar mais espaço para o aluno avaliar o que ele vai desenvolvendo", diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.
"No modelo tradicional de ensino, quem mais aprende é o professor. Lá (na Finlândia) é o aluno quem tem de buscar conteúdo, e o professor tem que saber qual o objetivo da aula. Para isso você não precisa de muita tecnologia, mas sim de capacitação (dos docentes)", agrega Joelma Kremer.

3. Repensar o papel da avaliação


Nesse contexto, a avaliação tem utilidade diferente, diz Kremer: "A avaliação está presente, mas os alunos se autoavaliam, avaliam uns aos outros, e o professor avalia os resultados dos projetos".
"Ao reduzir o número de testes (formais) e avaliar mais trabalhos em grupo e atividades diferentes, os professores têm um filme do desempenho do aluno, e não apenas a foto (do momento da prova)", diz Fechine.
"Conhecemos um professor de física finlandês que avaliava seus alunos pelos vídeos que eles gravavam dos experimentos feitos em casa e mandavam por e-mail ou Dropbox."


4. Usar tecnologia e até a mobília para ajudar o professor


A tecnologia não é parte central desse processo, mas auxilia o trabalho do professor em estimular a participação dos alunos finlandeses.
"Em vez de proibir o celular, os professores os usam em sala de aula para estimular a participação dos alunos – por exemplo, respondendo (via aplicativos especiais) enquetes que tivessem a ver com as aulas", conta Kremer.

Algumas salas têm mobília especialmente projetada para que os alunos possam ser agrupados ou separados

Salas especialmente projetadas e tecnologia amparam o trabalho do professor
"Isso torna a aula mais interessante para eles. E é complicado para a gente ficar dizendo, 'desliga o celular', algo que já começa estabelecendo uma relação de antipatia com o aluno."
Os professores brasileiros também conheceram algumas salas de aula com mobília especialmente projetada, diferente do modelo tradicional de cadeiras individuais voltadas à lousa.
"Muitas salas têm sofás, poltronas, mesas ajustáveis para trabalhos individuais ou em grupo e vários projetores", agrega Kremer. "É um mobiliário pensado para essa metodologia diferente de ensino."
Fechine vai reproduzir parcialmente a ideia no Instituto Federal da Paraíba, trocando as carteiras de braço por mesas que possam ser agrupadas para trabalhos.


5. Desenvolvimento de habilidades do século 21


A professora Giani Barwald Bohm conta que o ensino fundamental finlandês continua dividido em disciplinas tradicionais, mas focado cada vez mais no desenvolvimento de habilidades dos alunos, e não apenas na assimilação de conteúdo tradicional.
"(São desenvolvidas) competências do século 21, como comunicação, pensamento crítico e empreendedorismo", diz ela.
Para Fechine, estimular a independência do estudante é uma forma de romper o ciclo de "alunos passivos, que só fazem a tarefa se o professor cobrar, interagem muito pouco".

6. Intervalos mais frequentes entre as aulas


A Finlândia adota aulas de 45 minutos seguidas de 15 minutos de intervalo na educação básica – prática que Bruno Garcês acha que poderia ser disseminada por aqui. "Tira a tensão de ficar tantas horas sentado", diz.
Fechine também considera a ideia interessante, mas aponta que a grande carga horária no ensino médio brasileiro dificulta sua aplicação e lembra que na Finlândia ela é acompanhada de uma forte cultura de pontualidade. "As aulas começam no horário e aluno rapidamente entra na (rotina de) resolução de problemas."


7. Cultivar elos com a vida real e empresas


Muitos dos projetos dos estudantes finlandeses são tocados em parcerias com empresas, para aumentar sua conexão com a vida real e o mercado de trabalho, algo que Garcês acha que poderia ser mais frequente no Brasil.
"Aqui na área rural do Mato Grosso podemos ter uma interação maior com as fazendas locais, ministrando aulas a partir do que os produtores rurais precisam."
A vantagem disso é que o aluno vê sentido prático e profissional no que está aprendendo, explica Giani Barwald Bohm. "Ele desenvolve algo diretamente para o mercado de trabalho, que vai ter relevância para o próprio estudante e é contextualizado com as empresas locais."
Ela destaca também as competições de habilidades práticas desenvolvidas por escolas locais (um preparativo para a competição internacional WorldSkills, que neste ano será realizada em São Paulo, pelo Senai, entre quarta e sábado desta semana).
"As empresas são envolvidas na organização e acompanham os alunos no dia a dia e até ficam de olho para contratá-los depois."

Competição de habilidades entre alunos finlandeses; ensino é voltado para a prática


8. Formação mais prática e valorização do professor




A formação dos professores é apontada como a principal chave do sucesso do ensino finlandês. Os brasileiros observaram lá uma capacitação mais prática, voltada ao dia a dia da sala de aula, e mais interação entre o corpo docente.
"Algumas salas têm dois professores - um como ouvinte do outro caso seja menos experiente", relata Fechine.
"Há uma relação mais direta (entre os professores), com muita conversa entre quem dirige o ensino e quem dá aula", agrega Barwald Bohm.
"Além disso, há uma valorização cultural do professor lá, semelhante à de outras profissões. O salário é equivalente e as condições de trabalho dão bastante tempo para o planejamento das aulas", diz Bruno Garcês

ORIGEM DA FOTO E DO TEXTO: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150807_finlandia_professores_brasileiros_pai