terça-feira, 27 de março de 2012

A IMPORTANCIA DA LEITURA NA SALA DE AULA - PARTE 2



"Cláudio Henrique de Oliveira
Cristina Maria de Queiroz[2]
RESUMO: Neste trabalho, buscamos apresentar uma breve discussão teórica a respeito do ensino de leitura, bem como refletir sobre os fatores que contribuem essencialmente para a realização dessa habilidade e, consequentemente, para a construção de significados dos textos. Para isso, respaldamo-nos em alguns teóricos que propõem discussões e esclarecimentos a respeito da temática e, a partir dos aspectos teóricos discutidos, mostrarmos a importância de se trabalhar a leitura numa nova perspectiva, considerando e explorando os diversos aspectos (objetivos e conhecimento prévio, por exemplo) que conduzem o aluno a uma visão ampla dos textos e que, a partir dessa habilidade, possa interagir ativa e satisfatoriamente com o meio que o cerca e, por fim, ratificamos a necessidade de uma prática de ensino de leitura significante, que motive os alunos a realizarem leituras futuras e que contribua para a formação de pessoas conscientes, criativas que possam compreender, analisar e se sobressair na sociedade em que vive.
Palavras-chave: leitura, ensino, objetivos, conhecimento prévio.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A leitura representa uma atividade de grande importância para a vida de cada indivíduo. É através dela que podemos interagir e compreender o mundo a nossa volta e sua própria formação, realizar atividades que contribuem para o nosso crescimento e para agir ativa e criticamente na sociedade.
No que se refere ao ensino de leitura no âmbito escolar, podemos verificar que há muitas discussões a respeito, principalmente nas aulas de língua portuguesa. Dentre as discussões, observamos que a principal preocupação está em se dar a importância e o devido espaço para o ensino de leitura nas atividades de sala de aula. No entanto, outras atividades têm sido priorizadas, ou seja, a leitura fica para segundo plano, tornando o ensino de língua portuguesa cada vez mais mecânico e desinteressante. Acreditamos que essa prática de ensino é ocasionada por concepções que não conduzem o aluno a nada, ou seja, são práticas que não fazem parte da realidade dos alunos, que não os consideram como ponto de partida para a realização de um ensino produtivo.
Por entendermos o ato de ler como um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e análise do texto, a partir de diversos fatores, nesse trabalho buscamos fazer uma breve abordagem a respeito do ensino de leitura em sala de aula; em seguida, discorremos sobre fatores que contribuem essencialmente para a realização dessa habilidade e, consequentemente, para a construção de construção de significados dos textos.
A LEITURA NO CONTEXTO ESCOLAR: UMA BREVE DISCUSSÃO
A leitura é uma atividade de um elevado grau de importância para a vida do homem em sociedade. Em virtude disso, muitas discussões têm surgido em torno de sua importância para a formação de leitores e de cidadãos críticos, bem como em torno da prática de ensino de língua materna. Isso se justifica devido ao fato de que a leitura possibilita ao homem a inserção e participação ativa no meio social e, por isso, essa prática deve ser desenvolvida desde cedo e, primordialmente, no âmbito escolar.
Delmanto (2009) ressalta que a escola deve ter a preocupação cada vez maior com a formação de leitores, ou seja, a escola deve direcionar o seu trabalho para práticas cujo objetivo não seja apenas o ensino de leitura em si, mas desenvolver nos alunos a capacidade de fazer uso da leitura (com também, da escrita) para enfrentar os desafios da vida em sociedade e, a partir do conhecimento adquirido com essa prática e com suas experiências, continuar o processo de aprendizado e ter um bom desempenho na sociedade ao longo da vida.
A autora ainda acrescenta que diante das diversas transformações com as quais convivemos, a escola precisa, mais do que nunca, fornecer ao estudante os instrumentos necessários para que ele consiga buscar, analisar, selecionar, relacionar e organizar as informações complexas do mundo contemporâneo.
Nesse sentido, compreendemos que a leitura é um processo que não está limitado apenas ao âmbito escolar ou somente um meio para obter informações, mais do que isso, a ela deve ser uma prática que todos possam usá-la na própria convivência com o meio social. Entretanto, o que observamos é que, em muitas escolas, a leitura ainda é desenvolvida a partir da influência de muitos modelos tradicionais ou concepções errôneas de leitura. Solé (1996, p.33) discorre sobre essa problemática e esclarece que
O problema do ensino de leitura na escola não se situa no nível do método, mas na própria conceituação do que é leitura, da forma em que é avaliada pelas equipes de professores, do papel que ocupa nos Projeto Curricular da escolar, dos meios que se arbitram pra fortalecê-la, naturalmente, das propostas metodológicas que se adotam para ensiná-la.
O posicionamento da autora esclarece e ratifica o que dissemos anteriormente que muitas concepções ultrapassadas ainda perduram no método de ensino das escolas, principalmente pelo fato de muitos professores ainda estarem atrelados a práticas de leitura equivocadas. Esse fato, por sua vez, nos leva a acreditar que o ensino de leitura pautado nessas concepções acaba limitando as possibilidades de formação de bons leitores, capazes de interagir com as diversas estratégias de leitura. Na visão de Kleiman (2004), a aprendizagem da criança no âmbito escolar está baseada, fundamentalmente, na escola e, por essa razão, a leitura deve proporcionar uma interação entre o interlocutor e o autor do texto, ou seja, é necessário que se ensine a criança a compreender o texto escrito.
Desse modo, vemos que é preciso adotar métodos, criar situações que possibilitem aos alunos a capacidade de desenvolverem diferentes capacidades de leitura. Sobre isso, Delmanto (2009) considera que devemos ensinar, além da decodificação, a compreensão, apreciação do texto, assim como a relação do leitor com o texto. A autora acrescenta que se os educadores propuserem atividades visando a esses objetivos,
os alunos serão capazes não apenas de localizar informações, mas de relacionar e integrar as partes do texto, de refletir sobre os seus sentidos captando as intenções informações implícitas, de perceber relações com outros contextos, assim como de gerar mais sentidos para o texto e de valorar os que leem de acordo com seus próprios critérios. (DELMANTO 2009, p. 29)
Essa concepção revela o tratamento que deve ser dado ao ensino de leitura em sala de aula: a leitura deve ser vista como um processo de construção de significados. Diante disso, vemos a necessidade de a escola oferecer possibilidades de transformação, objetivando a formação de leitores críticos e conscientes de sua realidade.
Nessa perspectiva, entendemos que o ensino de leitura deve ir além do ato monótono que é aplicado em muitas escolas, de forma mecânica e muitas vezes descontextualizado, mas um processo que deve contribuir para a formação de pessoas críticas e conscientes, capazes de interpretar a realidade, bem como participar ativamente da sociedade.
Leitura: uma nova concepção
Como já discutimos, a leitura é essencial para o bom desenvolvimento individual e social do homem, é pela leitura que podemos construir e reconstruir conceitos que servirão para a nossa formação enquanto sujeitos sociais.
Leffa (1996, p. 17-18), ao propor uma definição de leitura, afirma que
A leitura é um processo feito de múltiplos processos, que ocorrem tanto simultânea como sequencialmente; esses processos incluem desde habilidades de baixo nível, executadas de modo automático na leitura proficiente, até estratégias de alto nível, executadas de modo consciente.
Diante desses esclarecimentos, compreendemos que a leitura é um processo amplo no qual o leitor precisa dispor de diversas estratégias para chegar à compreensão do texto. Em outras palavras, a leitura não estaciona na mera decodificação, tendo em vista que essa concepção, como mostra Kleiman (1997), dá lugar a leituras dispensáveis, pois não modifica a visão do aluno em nada. Assim, Leffa (1996) pretende esclarecer que o leitor dispõe de diversas estratégias para construir o significado do texto e por essa razão, a leitura não deve envolver somente o leitor ou o texto, mas a interação entre o leitor e o texto para, enfim, se produzir o sentido do texto.
Outro aspecto relevante que Leffa (1996) ressalta é que, além das competências essenciais para a leitura, o leitor precisa ter a intenção de ler determinado texto. Na concepção do autor, "essa intenção pode ser caracterizada como uma necessidade que precisa ser satisfeita, a busca de um equilíbrio interno ou a tentativa de colimação de um determinado objetivo em relação a um determinado texto." (LEFFA, 19996, p. 17)
Diante desse pressuposto, acreditamos que a leitura não é uma prática isolada, e para que ela ocorra de forma satisfatória, faz-se necessário que o leitor defina, no momento da leitura, os seus objetivos, e assim, possa chegar ao sentido do texto.
Na opinião de Kato (1987), estabelecer objetivos para a leitura é um dos meios que compõem o ato de ler. A autora menciona o fato de que estabelecer metas durante a leitura, além de ser um modo de chegar a uma melhor compreensão do texto, é também um caminho para uma leitura madura, traçar objetivos são, portanto, estratégias conscientes e, típicas de um leitor maduro, proficiente.
Kleiman (2004) também partilha desse ponto de vista e ressalta que ao ler, todo leitor tem objetivos, propósitos específicos e que ao estabelecer metas para a leitura, o leitor terá uma compreensão maior do texto e, além disso, será capaz de lembrar melhor os detalhes relacionados a seus objetivos, ou seja, lembrará mais e melhor aquilo que leu especialmente as informações e/ou metas que pretendia encontrar no texto. Assim, Kleiman (2004, p.30) ratifica esse posicionamento quando afirma que "há evidências inequívocas de que nossa capacidade de processamento e de memória melhoram significativamente quando é fornecido um objetivo para uma tarefa."
Seguindo esse ponto de vista, a autora complementa que "a leitura que não surge de uma necessidade para chegar a um propósito não é propriamente leitura" (KLEIMAN, 2004, p.35). Diante disso, compreendemos que muitas vezes a leitura realizada no âmbito escolar acaba se tornando uma atividade desmotivadora, mecânica que não leva a nenhum aprendizado, tendo em vista que os objetivos traçados por outrem para a leitura de um determinado texto, muitas vezes, não satisfazem o interesse de todos e acaba tornando o ato de ler desinteressante. Assim, entendemos que a escola deve propor aos alunos, durante as aulas de leitura, textos que despertem o interesse da turma, a fim de que esta possa definir objetivos para a leitura daquele texto e, em consequência disso, sejam induzidos a ler outros textos.
Solé (1996, p. 22) se inclui nessa mesma concepção sobre o ato de ler, quando define leitura como "um processo de interação entre leitor e o texto; neste processo, tenta-se satisfazer os objetivos que guiam sua leitura". Essa afirmação ratifica o que discutimos anteriormente, já que esclarece que no ato da leitura, deve haver o envolvimento de um leitor ativo que examina e reflete sobre o texto, assim como deve existir um objetivo para guiar a leitura (seja por lazer, obter informações, ou até mesmo seguir instruções para a realização de uma atividade). Desse modo, acreditamos que a interpretação que fazemos de um texto depende dos objetivos que temos naquela leitura, assim, é possível que diferentes leitores com finalidades diferentes possam construir sentidos diferentes ao lerem o conteúdo de um mesmo texto.
Por fim, acreditamos que a capacidade de estabelecer objetivos é de fundamental importância no ato de ler, é, acima de tudo, de acordo com Kleiman (2004), uma estratégia metacognitiva, uma vez que, o leitor terá a capacidade de controlar e condicionar o próprio conhecimento, pois permite avaliar sua capacidade, bem como refletir sobre o próprio conhecimento.
Além desses aspectos já apresentados, Kleiman (2004) explica que o conhecimento prévio é outro elemento preponderante no ato de ler, ou seja, é um dos caminhos para se chegar à compreensão do texto. Para a autora, "a compreensão de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização de o conhecimento prévio: o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento adquirido ao longo da vida". (KLEIMAN, 2004, p.13)
A esse respeito, Leffa (1996, p. 10) ressalta que "a verdadeira leitura só é possível quando se tem um conhecimento prévio", pois não lemos "apenas a palavra escrita mas também o próprio mundo que nos cerca". Assim, compreendemos que para o autor, o sentido de um texto não está em si mesmo, mas sofre influências do conhecimento de mundo de que o leitor dispõe, e a partir disso, atribui significado ao texto. Esses esclarecimentos revelam que, na prática de leitura, o leitor não lê letra por letra, mas faz uso de seus conhecimentos prévios, e, à proporção que vai lendo, vai fazendo antecipações e inferências sobre o conteúdo do texto.
É por essa razão que Kleiman (2004) mostra que em alguns textos, inicialmente incompreensíveis, só são possíveis de serem compreendidos quando o conhecimento prévio é ativado. A autora salienta que, nesse caso, o texto permanece o mesmo, o que ocorre é uma modificação na compreensão ocasionada pela ativação do conhecimento já adquirido, isto é, "devido à procura na memória (que é nosso repositório de conhecimentos) de informações relevantes para o assunto, a partir de elementos formais fornecidos no texto". (KLEIMAN 2004, p.22)
A partir desses esclarecimentos, podemos compreender que a ativação do conhecimento prévio constitui num fator essencial para a compreensão do texto, uma vez que se trata do conhecimento que o leitor tem sobre um determinado assunto que lhe permite fazer inferências que permite fazer relações com as diferentes partes do texto e, assim, construir o sentido do texto como um todo.
Kato (1987) confirma e finaliza esses esclarecimentos a respeito do conhecimento prévio, explicando que para o entendimento do texto envolve o conhecimento de mundo do leitor e suas experiências. A autora elucida que a leitura de um texto não é realizada apenas com base nos contexto lingüístico imediato, mas compreende informações extra textuais, ou seja, a leitura envolve o conhecimento de mundo do leitor que, por sua vez, contribui para dar sentido ao texto.
A partir desses esclarecimentos que o ato de ler envolve muito mais do que uma mera decodificação das palavras ou extração de informação, é, na verdade, um processo múltiplo que envolve diversos fatores como os objetivos e o conhecimento prévio abordados que, por sua vez, capacita o leitor a desenvolver habilidades próprias de leitores proficientes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como pudemos verificar, muitas tendências surgiram buscando inovar o ensino de leitura nas aulas de língua materna e acabam criando discussões acerca de como essa habilidade vem sendo trabalhada em muitas escolas durante as aulas de língua portuguesa. Além disso, essas discussões procuram promover mudanças positivas no ensino de leitura, ou seja, procuram mostrar que um método de ensino desvinculado das concepções tradicionais que não acrescentam nada ao conhecimento do aluno.
Diante disso, compreendemos que é o ensino de leitura deve está fundamentado nas reais necessidades do aluno e que cabe à escola repensar a sua prática e criar condições para a realização de um ensino interativo. Para atingir esse objetivo, é preciso, antes de tudo, que a escola analise a sua postura e faça as modificações necessárias, pois, só assim, ela estará superando o tradicionalismo que ainda predomina no seu fazer pedagógico.
Acreditamos que uma nova postura da prática de ensino de leitura seria bem mais satisfatória. Para isso, seria necessário considerar os diversos fatores que contribuem para a concretização de uma leitura proficiente. Em outras palavras, é preciso que os professores tenham consciência de que o leitor e o texto mantêm entre si uma relação de interação e que nessa troca diversos outros aspectos contribuem para a compreensão dos textos. Assim, cremos que motivar os alunos a estabelecerem metas para suas leituras (a partir de uma condição prazerosa de leitura) e que consideram seus conhecimentos prévios, teríamos um ensino produtivo e motivador.
Por fim, ratificamos a necessidade de uma prática de ensino em que o ato de ler se torne para os alunos uma prática significante e uma motivação para futuras leituras, bem como um recurso para a formação de leitores proficientes, de pessoas conscientes, criativas que possam compreender, analisar e se sobressair na sociedade em que vive.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELMANTO, Dileta. A leitura em sala de aula. Construir Notícias, Recife, ano 08, n. 45, p. 24-26, mar./abril. 2009.
KATO, Mary. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística. São Paulo: Ática, 1987.
KLEIMAN, A. Texto & Leitor: Aspectos cognitivos da leitura. 9 ed. Campinas: Pontes, 2004.
LEFFA. Vilson. Aspectos da leitura. Porto Alegre: Sangra Luzzatto, 1996.
SOLÉ, L. Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

[1] Trabalho apresentado ao Curso de Especialização em Lingüística Aplicada do Departamento de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus Avançado "Profª. Maria Elisa de A. Maia", em Pau dos Ferros, como pré-requisito de avaliação da disciplina Leitura.
[2] Alunos do curso de Especialização em Lingüística Aplicada - CAMEAM/UERN"